quarta-feira, 20 de maio de 2015

O dia em que a TV saiu de cena ou Meu filho de volta!

Eu não ia escrever sobre isso hoje, estava esperando completarmos uma semana de mudanças em casa, mas esse post quer sair agora e eu obedeço. Boa nova a gente espalha logo. Se deu certo aqui, não custa dividir, quem sabe dá aí também. Eu e minha mania de começar as coisas de trás pra frente. Vamos ao começo então.
Consegui manter a TV longe do nosso cotidiano nos dois primeiros anos de Miguel. Víamos um DVD ou outro, mas nada rotineiro, nada regular. Seguíamos bem. Helena nasceu e,com ela a necessidade  de manter o pequeno distraído e ocupado por um tempo. Começamos a ligar a TV 15 minutos por dia. Só um episódio. Só enquanto aproveito o cochilo da caçula pra preparar o almoço. Só mais um episódio. Só mais quinze minutos. Tem nada não,não vê propaganda, é no Netflix. Pronto, ela achou a porta aberta, se instalou no meio da sala, do nosso dia, da nossa vida. E meu filho já passava uma hora, ou mais, frente a ela. Antes, de prosseguir, preciso esclarecer algo. Amo séries, amo vídeos, sou louca por filmes. Ah, amo programas de culinária também. Tenho TV desde sempre e creio que terei para sempre. Mas foi necessário discutirmos nossa relação.
Voltando a Miguel. Meu filho tem um gênio forte, sabe o que quer, a hora que quer e do jeito que quer. Tem um certo problema em aceitar ordens e crescemos juntos trabalhando nisso. Mas nos últimos meses as coisas tomaram proporções apocalípticas. Eram quatro, cinco, seis explosões emocionais por dia. Uma agressividade e estresse assustadores. É o terrible two. É fase. Vai passar. Putz, tá piorando. Não, não ia passar. E não adiantava acender vela pra que tudo melhorasse sozinho. Eu precisava fazer algo, Analisamos o que tinha mudado na vida do pequeno nos últimos meses. O pai voltou a trabalhar fora, ganhou uma irmã. Muita coisa mudou, muita coisa pra digerir. Precisávamos ajudá-lo na adaptação da nova realidade. Estamos mudando a forma de falar e agir com ele, e isso tem trazido resultados incríveis - prometo que escrevo sobre isso em breve. Mas eu sabia da necessidade de tirar a televisão da cena. Mas como? Como seria possível não utilizar desse artificio quando se fica 24 horas por dia, 7 dias por semana com a criança? Sem escola, sem creche, sem babá, sem trabalhar fora? Como que eu ia respirar? E o tempo pra mim? Como iria distraí-lo? Decidi tentar. No final de semana ele não viu nada direcionado a ele, mas nós assistimos algumas coisas. Na segunda troquei a TV pela música. ¨Mamãe, não tá aparecendo nada". "É filho, hoje a música é só pra ouvir." Não achei que seria possível. Não achei que conseguiríamos. Mas cá estamos, ligando a TV apenas depois que os dois dormem! E, surpreendentemente, estamos vivendo dias deliciosos. Meu filho criativo, carinhoso e feliz voltou.  Assim, em menos de três dias. Ele voltou. Nos últimos três dias não precisei segurar meus monstros interiores nenhuma vez. Não quis bater nele, não entramos em confronto, não os descontrolamos. 
Sem o entretenimento pronto ele voltou a desenhar  várias vezes ao dia. Voltou a pedir o violão pra tocar. Tem brincado mais com a irmã. Tem estado mais calmo. Seu pequeno processador recém inaugurado não tem precisado processar informações demais. Não está sobrecarregado, não dá curto. Sua pequena vida tem tido cores mais naturais, mais vivas, mais sentidas. Não, eu não quero dizer que a televisão é um cão que suga a mente de criancinhas. Quero dizer apenas que a retirada dela fez milagres. Ou a entrada dela que trouxe caos. Não sei se todas as crianças são tão fortemente influenciadas pelo excesso de informação da TV, mas aqui, com meu filho, a relação será apenas de conhecidos. Visita rápida, bem esporadicamente. Talvez um filme, em família, um final de semana ou outro. Mas não a quero mais em nossa rotina.
Depois de encarar os fatos, tenho visto que nem tudo que reluz é ouro. Nem toda ajuda é tão bem vinda. Eu realmente achei que a TV era necessária e que quebrava um galho deixando o pequeno quieto por alguns minutos. Eu realmente acreditei que sem ela o dia seria ainda pior. Mas não. Os efeitos colaterais não valeram a ajuda. O tempo de paz não valia o estresse e a guerra no fim do dia. O silêncio precedia o esporro. Ainda não consegui elaborar tanta mudança. Talvez não tenha sido apenas o excesso de informação. Talvez a TV tenha nos distanciado mais do que pensei. Talvez ele sentisse um pouco de abandono ali, sentado, sozinho, de frente pra tela. Talvez seja tudo junto e misturado. O que posso dizer é que vale a pena escutar algo. Vale a pena deixar que suas cabecinhas de criança criem sua própria diversão. Estudos sobre os malefícios da dita cuja tem aos montes, espalhados por toda a internet. Essa semana a teoria, aqui, saiu do papel. Senti na pele. Nesse eterno ir e vir, avançar e retroceder da maternidade, sigo descobrindo o que nos faz bem e nos faz mal. Sigo costurando essa colcha de retalhos que me define, tecendo hoje, desfazendo o ponto amanhã. Não posso garantir o resultado final, mas o caminho, por si só, já tem valido a pena.

domingo, 2 de novembro de 2014

Sobre o tempo ou Eles já nascem sábios.

Filhos chegam na vida da gente por um motivo. Sempre. A chegada de Helena foi uma surpresa. Mas ela tinha que vir, pra me ensinar que mudança de verdade é de dentro. Vem de lá do fundo. Me ensinou no parto. Me ensinou ontem. Vai ensinar ainda mais.
Ontem eu iria receber visitas, e como apaixonada por cozinha que sou quis aproveitar o ensejo para testar uma receita para um novo projeto. Saí pela manhã e cheguei a tarde com várias receitas pra fazer. Me pus na cozinha, ignorando que tenho uma filhota de três meses. E volta e meia ela chorava. Volta e meia eu parava tudo para colocá-la para dormir. Adormecida, colocava na cama ou entregava nos braços do pai. Mas ontem a minha pequena que sempre dorme no berço, na cama ou nos braços do pai, decidiu que só lhe serviam os meus braços. Assim passei a tarde revezando entre a cozinha e o colo. O saldo foi um naked cake duro, ressecado e sem gosto e uma menininha estressada, chorando e gritando porque não dormiu mais que trinta minutos seguidos.
Como já disse, filhos ensinam. Nascem sábios. Se permitirmos, eles transformam cada pedacinho de nós. Esta foi uma das piores semanas da minha vida. Começava o dia desejando desesperadamente voltar para a cama. Me arrependi de ter abdicado do salto alto, do trabalho, do tempo, do sono. Decidi que não queria mais. Que se encontrasse uma máquina do tempo avisaria à Elisama sem filhos, livre, leve e solta que filhos dão trabalho demais e que não vale a pena. Decidi que caí numa cilada e que, sem opção melhor, eu teria que seguir até o dia que finalmente me sentiria livre novamente. Não estou exagerando. Estou em casa, cuidando de criança faz dois anos. Quando a fusão emocional com o primeiro estava acabando, vem a vida e me empurra num novo puerpério. E prolonga em alguns anos a mudança que tinha prazo contado. A verdade é que não queria me entregar mais. Queria voltar a viver além da maternidade. 
Quem leu meu relato de parto sabe que Helena chegou me mostrando que existem mais tempos que os meus no tempo do mundo. Ontem, depois da tarde e noite de choro - meu e dela - aprendi que se estamos juntas nessa jornada, precisaremos harmonizar nossos tempos. Não importa se vivi os dois últimos anos dedicados a um filho. Ela chegou a três meses. E quer meu tempo. 
Desde que nasceu eu a vejo como um bebê de sonho, na maior parte do tempo. Passa horas entre uma mamada e outra, dorme a noite toda, mamando no máximo uma vez. Se deixa embalar e consolar pelo pai, facilmente. E eu não entendi que ela estava respeitando meu tempo, esperando apenas que eu também respeitasse o dela. No entanto o bebê calmo, tranquilo e de sonho, se transforma em um pesadelo quando chora.O choro gritado me desestabiliza. Me tira o chão. Quando ela chora, recusa o peito. Berra. Exige de mim algo que até ontem eu não sabia como dar. E foi no escuro do meu quarto, entre lágrimas e berros nossos que eu entendi. Entendi que ela precisa que eu me acalme para só depois acalentar. Percebi que dar o colo e o peito não é suficiente. Ela me vê por dentro. Eu, que nunca consegui meditar, nunca consegui um silêncio interior, me pus a desacelerar e esquecer. Esquecer a sala cheia, o filho mais velho, o bolo solado. Esquecer o horário. O tempo que vivi. Os planos e dias que viverei. Me pus a esvaziar a mente. Me pus a entender minhas reais prioridades.
Depois de um dia louco e alguns planos frustrados, percebi que é o momento que tenho que planejar menos. Ou melhor, não planejar nada. Agora, a mulher controladora e louca que sempre fui precisa aprender que o tempo é senhor dele mesmo, e não aceita controle. O novo projeto terá que esperar. Antigas parcerias também. Naquele quarto escuro percebi que não preciso pisar no freio pelos meus filhos. É por mim. É pela mãe de um menino de dois anos e pela puérpera. Pela mulher que fui. Pela mulher que serei. E pela primeira vez na vida dou tempo ao tempo. Ciente de ter me passado a lição que precisava, dormiu calmamente, a noite toda, o sono dos justos. Já falei e repito, eles nascem sábios.

domingo, 14 de setembro de 2014

Recomeços.

As gotas de leite pingando no chão me diziam que eu estava mais uma vez parida. Era a minha primeira semana sendo mãe de dois. Estava no banho, olhei para a barriga, então "vazia" e chorei. Não era um choro de tristeza, nem de felicidade. Era choro de puérpera. Choro de quem passou nove meses sendo dois, e tornava-se novamente uma. Recém-parida e recém nascida. Porque no parto também nasce uma mãe. Até então me conhecia como mãe de Miguel. No parto nasceu a mãe de Helena. Nasceu com dor, com lágrima, com descontrole. Nasceu como tinha de nascer. 
Nunca duvidei que amaria minha filha. Nunca achei que a amaria menos que a Miguel. Mas em momento nenhum tive noção do que amar a dois filhos significa. Amar aos dois é algo transcendental. Não dividi meu coração, ganhei outro. Vê-los juntos faz tudo ganhar sentido. Cada vez que a pequena ri para o irmão me faz conhecer um sentimento que só a mãe de dois pode ter. Mas nem tudo é lindo, é romântico, é ideal.
Nos primeiros dias com a pequena Miguel me rejeitou. Negou meu abraço. Não quis o meu colo. Conheci uma dor que nunca tinha sentido. Chorei imaginando que não daria conta, que ter dois filhos era uma loucura. O olhar de menino traído me atingia profundamente. Como eu pude fazer isso com ele? Como pude ceder seu colo para uma estranha assim? Depois de dois dias ele me permitiu um  abraço. Tímido, contido. Agarrei meu filho com força e chorei. Mais uma vez.  Porque puérpera, recém nascida que é, chora. Chorei dizendo que o amava e que o bebê que agora mamava nos seios que foram dele tinha vindo para a nossa casa para abençoar e multiplicar o que tínhamos. Falei para ele (e para mim) que não havia divisão. 
Hoje, quase dois meses depois de parida, aprendi que o segundo filho vem como precisamos que seja. Vem porque a família precisa de ainda mais amor. Vem porque tem muito a dar e ensinar. Vem para completar. Senti medo de não dormir nunca mais. Minha filha veio com um sono tão gostoso e tranquilo que dormir ao seu lado me faz dormir melhor que antes de sua chegada. Sua energia calma adoça o dia. O segundo puerpério é mais leve, menos tenso, menos assustado. Não tenho a vontade de ser a mãe perfeita. Não tenho medo de não saber o que fazer. Meu corpo já gestou e pariu dois. Já alimentou um. Sei que sou capaz. Gasto menos tempo lendo sobre maternidade. Passo mais tempo vivendo a maternidade. Duvido menos, acredito mais. Sei que bebês choram e que, por vezes, me resta abraçar, amar, consolar. Os momentos de colo são melhor aproveitados. No colo agora cabem dois. E no chuveiro somos três.
Como disse, nada é perfeito. Os dias seguem oscilando em dias muito fácies e realmente incríveis e dias de piração total.Por vezes são dois choros, ao mesmo tempo, e tenho que escolher a quem atender primeiro.São duas demandas diferentes. São dois seres diferentes me tornando alguém que ainda estou conhecendo. No puerpério conhecemos o bebê e nosso novo eu.
Pois agora sou mãe de dois. Tenho dois corações batendo forte no peito. E dois pedaços de mim no mundo. Tenho dois motivos para acordar. Dobrou o amor dentro de casa. Dobrou o choro. Dobrou o riso. O dobro de vontade de fugir. E de razões para ficar. Duas vezes mais beijo, mais dengo, mais carinho. Duas vezes mais cheiro de vida. Mais vida. Dois Sóis iluminando e aquecendo a fria solidão do pós parto. Cá estou, com um recomeço nos braços e entendendo que a vida tem suas próprias razões.  


domingo, 27 de julho de 2014

Relato de parto - Nascimento de Helena

Há uma semana Helena vinha. Aos poucos, no tempo dela, pra me ensinar que cada vida tem seu tempo e que nada está sob meu controle. Foi no domingo que tudo começou. Foi na noite de domingo que nossa jornada se iniciou, hora juntas, hora separadas. Ela para fora e eu pra dentro de mim. Mas não dá pra começar este relato pelo final, então vamos pro começo.
Quem acompanha o blog - se é que há algo para acompanhar, visto que tenho escrito tão pouco - sabe que não planejei esta gravidez. Helena veio porque queria vir, porque precisava nascer de mim. E eu dela. Durante a gravidez esquecia que estava gravida, absolutamente voltada aos cuidados com Miguel, hoje com 23 meses. Só não esquecia do parto. Porque ativista é assim, adora parto, adora parir, adora planejar o implanejável. Eis que planejei cada detalhe. Como não sabia onde estaria morando no final da gravidez - longa história, fica pra outro dia - decidi parir em Salvador, na casa da minha  doula-amiga-sócia. Contratei fotografa amiga e ativista. Convidei uma amiga, também ativista pra cuidar do meu pequeno e estar por perto também. Contratei a parteira mais tranquila e "hands off" que podia existir. Piscina, bola, banqueta. Era isso. O parto seria perfeito.
Para falar do meu segundo parto, não posso deixar de falar do primeiro. Do meu renascimento, da minha passagem para um mundo novo. A mulher que gestou Miguel não era uma ativista do que quer que fosse. Entendia o básico de parto. Bancou uma parteira que veio de São Paulo enquanto estava em trabalho de parto. Queria apenas parir, não importava mais nada. E conseguiu. Mas a mulher que gestou Helena queria o parto perfeito. Queria ser amiga da dor. Queria mais que parir. Queria o parto que seguisse o script. 
Como disse, pari na casa de uma amiga. Com quase 38 semanas nos mudamos para casa de Lu sem prazo para voltar. Na sexta-feira as amigas organizaram um lindo chá de bençãos. Muito amor, muita ocitocina e muita energia positiva. Helena viria num mundo de amor. Com a virada da lua o sábado foi de pródomos, contrações irregulares, moleza. E o domingo veio com leves cólicas. Cólicas que eu conhecia. Meu corpo me dizia que era o trabalho de parto vindo. Avisei a todas as envolvidas e ao marido: " Vou parir hoje ou amanhã, eu sei." E assim foi. No domingo a noite as contrações se ritmaram. As cólicas leves vinham com dor. Era o tão sonhado parto perfeito vindo. Arrumamos o quarto, escuro, iluminado com velas, bilhetinhos emanando boas energias "dazamiga parideira" nas paredes. Músicas cuidadosamente selecionadas. Piscina cheia, bola para apoiar. Aquela dorzinha do começo, que mostra que o corpo tá funcionando bem, que a hora está chegando. Chegaram a parteira e a fotografa. A minha irmã e a minha amiga. Estava tudo pronto, era só parir. 
As horas foram passando, a madrugada entrando. Pedi pra ficar só. Precisava me conectar comigo, com minha filha. Mas algo estava errado. Eu queria sentir novamente o que a mulher que pariu Miguel sentiu.Eu queria me entregar, ficar cega, surda. Queria me drogar de ocitocina. Mas não tem botão pra isso. Não dá pra desligar a racionalidade. Não dava pra deixar a ativista atras da porta. Eu não conseguia não pensar. Mas como era possível? Como que eu não conseguia sentir o trabalho de parto? Todas as vezes que ficava só, dormia. A racionalidade era tanta que eu sabia quando comer e o que comer. A clara sensação de que eu estava vendo tudo de fora não me abandonava. E isso me incomodava.
A cada ausculta viamos que apesar de tão desconectada com o parto, Helena fazia a parte dela. Estava descendo no seu ritmo, seguindo lindamente sua jornada. Se em minha cabeça o parto não estava acontecendo, no meu corpo a vida seguia seu rumo, como tinha de ser. Eis que amanheceu. O raiar da segunda me trouxe uma enorme sensação de fracasso. E me pus a chorar. Chorei como criança que vê seu castelo de areia, tão cuidadosamente arquitetado, desmoronar na força da maré. Chamei de cansaço, mas aquele era um choro de frustração. Chorei falando que não aguentava mais a dor, porque não aguentava mais tanta coisa fervilhando na cabeça, chorei porque não conseguia saber o que fazer. Eu, que utilizo o toque no colo do útero como método contraceptivo não conseguia me tocar! Estava tão desconectada que me tocava errado! Eu, que contratei a parteira falando que não queria que ela encostasse em mim, perguntava o que fazer! Não conseguia ouvir meu corpo, saber em que posição ficar, não conseguia sentir nada além da dor. Era muita frustração para um parto só. Nada estava como planejado, nada estava certo.
Miguel acordou, me viu, me deu beijo. Marido deitou um pouco comigo, me abraçou. Em todo o trabalho de parto, este momento me marcou muito. Eram os meus amores. Eles estavam ali, sem expectativas, pouco se importando se o parto seria rápido e lindo ou não. Eles tinham amor puro e calmo. Importava apenas que eu estivesse bem. Amor renova.
Depois de tanta frustração,resolvi mandar o parto perfeito pra longe. Vocalizar uma ova, eu queria mandar pro inferno. Aquela porra de dor não era minha amiga. Gritei, xinguei. Soltei um caralho que vinha da alma. Fui pro chuveiro e surtei. Surtei, bicho ferido. E pela primeira vez em todo o trabalho de parto eu estava inconsciente. De dor, de frustração, de raiva. Gritava feito louca. Me permiti odiar a parteira, as amigas, todas as ativistas do mundo, toda a ciência do parto. Espumei de raiva. Bradei. E ali, naquele ataque de ódio o restinho do colo saiu. Ali Helena desceu e ali eu quase pari. Mas a maldita ativista cabeçuda voltou com a baboseira de amiga da dor. Contive o animal ferido e voltei pra piscina, numa vibe: " dor, eu te aceito e blá, blá. blá." Me toquei. A bolsa não estourava e tinha formado uma bossa. Sentia a "bolha" ali, na saída, feito rolha, tapando o canal. Agora esperar a contração vir forte o suficiente para estourar a bolsa. Da forma que ela estava dificilmente viria empelicada. Eu estava exausta. Exaurida. Tanila, a parteira, viu o quanto eu estava fraca e sugeriu um pouco de soro glicosado. E colocamos soro em minha veia. Desanimada, abatida, cansada e novamente consciente pedi que ela rompesse a minha bolsa. Recebi de pronto uma negativa firme. "Não". Depois de reanimada pelo soro, conversamos novamente. Eu não tinha mais forças. Eu precisava continuar, mas não aguentava mais toda aquela dor. Não dava para esperar aquela bexiga na saída do meu canal estourar sozinha para só depois parir. Eu precisava de ajuda. Frustrada e ferida solicitei uma intervenção. Eu, que tinha planejado o parto mais "hands off" possível. Eu que tinha planejado tanto. Também muito frustrada ela aceitou: " Vou ter que fazer um toque - algo que eu não queria nenhum, de forma alguma - e preciso fazer isso durante a contração. Vamos andar, vamos mudar a posição, ela vai estourar sozinha.". "Não, Tanila, eu quero agora.". Nós duas, cada uma frustrada a sua maneira, aceitamos aquela intervenção. E muito rapidamente a bolsa rompeu. Ali, naquele momento eu entendi tudo. Ali, depois da ultima gota d'agua para o desmoronamento do meu parto perfeito, ali, depois de uma intervenção eu entendi. Em tantas horas eu estava parindo um parto, não minha filha. O parto é meio, não fim. O ativismo te enche de expectativas e te faz esquecer que o parto é uma via de nascimento. Eu estava ali para parir a minha filha! Assim que a bolsa rompeu eu senti a cabeça de minha filha descer, com uma contração. Assim que a contração foi embora, levantei, ainda com soro, mas com as energias revigoradas. Levantei pedindo a banqueta. 
Eu ia colocar Helena no mundo na próxima contração. Ela ia nascer. E a banqueta chegou junto com a contração. Sentei torta, cega, surda, louca. Sentei fazendo força e já com a cabeça da pequena saindo. E em mais uma contração ela estava em meus braços. Grande, gorda, cabeluda. Linda. Olhei pra ela e entendi que tudo aquilo foi pra que eu entendesse que era ela o motivo de estar ali. Foi assim, quando realmente resolvi parir, a parteira estava no banheiro lavando a mão e teve de vir correndo, a fotografa longe e quase perde o grande momento. De supetão, de surpresa. Ela queria nascer. Ela só queria que eu também desejasse seu nascimento. Ela querendo vir ao mundo e eu querendo o parto lindo e perfeito.
A placenta caiu no chão menos de cinco minutos depois. Um ploft que também me aliviou. Pedi que a pegassem. Beijei e agradeci. Agradeci àquela que cuidou da minha pequena dentro de mim. Agora era comigo. Marido e Miguel chegaram, recebi beijo, abraço e vi que agora éramos quatro. 
Ah, filha, obrigada. 
Obrigada por me ensinar que parir é perder o controle. 
Obrigada por vir no seu tempo, pra me mostrar que existem mais tempos que os meus no tempo do mundo. 
Obrigada por ter feito sua jornada enquanto eu me perdia nos devaneios e planos de mulher controladora.
 Obrigada por vir de mim. Tinha de ser assim. Tinha de ser eu, tinha de ser você.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um adolescente de quase dois anos.

Certa feita li que o terrible two era a adolescência da infância. Para quem nunca ouviu falar nesta expressão, ela traduz algo que acontece por volta dos dois anos - as vezes antes, as vezes depois - , em decorrência do desenvolvimento emocional da criança. Sim, a deliciosa fase de enormes descobertas traz consigo efeitos colaterais. Tenho lido bastante a respeito, mas, como em diversas leituras, tenho aprendido racionalmente, mas não sentido, assim, na pele. Hoje entendi a comparação com a adolescência, e achei a descrição perfeita. 
Lembro bem de alguns sentimentos da minha adolescência. A vontade de sair e viver como um adulto vinha acompanhada da impossibilidade de me sustentar, emocional e financeiramente. Já não era uma criança, mas também não era um adulto. Estava ali, naquela zona cinza e indefinida, inadequada tanto em um quanto em outro meio. Pois bem, meu menino de quase 21 meses já não se sente um bebê. Quer vestir a roupa sozinho, calçar os próprios sapatos e andar solto por aí. Descobriu que o mundo é grande e que ele quer mais. Mas esse mundão enorme não atende as suas necessidades, não abarca as expectativas de um serzinho de menos de um metro. Inevitável a crise existencial.
Os últimos dias tem sido fofos e muito, muito difíceis. Tudo assim, junto e misturado. O guri partiu de um vocabulário de no máximo 20 palavras para falar com perfeição palavras com mais de três sílabas. Resolveu começar a fazer cocô no peniquinho. Tem interagido de uma maneira impressionante - pelo menos para mim, mãe babona assumida. Mas ao tempo que estas deliciosas mudanças vieram, veio também um desejo irrefreável de autonomia e independência. Para tudo responde um NÃAAAAO, sonoro e explicadinho, para deixar bem claro que ele tem vontade sim, e que quer que esta vontade seja respeitada. E respeitar esta vontade não é fácil não! Confesso que o terrible two tem me forçado a ir além de mim. A estudar e me superar. A contar até 350, a sair de perto, a respirar muito, muito fundo. Passo o dia negociando com o que é possível, conversando, oferecendo opções e, entoando um mantra quando a vontade dele é algo impossível de ceder. 
Depois de uma manhã linda e tranquila, cheia de brincadeiras e calmaria, a tarde veio tempestuosa. A criança acordou do cochilo absolutamente diferente e, depois de enlouquecermos, ambos, trancados em um apartamento, decidi ir no mercado perto de casa, aproveitaríamos a caminhada para passear e abstrair. Chegamos ao mercado, comprei o que precisava , com o pequeno sentado no carrinho, feliz da vida, apontando as coisas e falando tudo que reconhecia. Na saída ele me pediu uma das sacolas, e, antes que eu pudesse deixá-la com o peso adequado já estava ele, com o saquinho na mão. Não era pesada, cerca de 600 gramas, mas, como a caminhada seria de mais ou menos dez minutos, resolvi avisar:
- Filho, se você sentir que está pesado, devolve a sacola que a mamãe leva, tá?
- tá.
Depois de pouco mais de 2 minutos, a criança arremessa o saco longe, visivelmente irritado. Peguei a sacolinha e perguntei se ele ainda queria levar. Com a resposta afirmativa, recoloquei a sacola em suas mãozinhas ansiosas e seguimos. Mais dois minutos e novamente a sacola é arremessada. Desta vez ele grita, chora, e senta no chão. 
E lá vou eu, muito a contragosto, confesso, com um barrigão de seis meses de gestação, duas sacolas de mercado na mão, agachar, no meio da calçada, para conversar com a cria. Foi aí que percebi que eu não tinha nada com aquela história, que aquela explosão emocional não era comigo. Meu filho chorava muito, um choro irritado e sofrido. Os olhinhos transpareciam uma enorme frustração. E tudo ficou muito claro. Ele só queria ser capaz de me ajudar, de levar a sacolinha, como todo mundo faz. Ele não queria muito.Só queria um pouco mais. Senti meu coração apertar, um nozinho na garganta. Na hora minha impaciência foi embora. Consegui ir além dos meus preconceitos e vi ali uma criatura muito decepcionada, se sentindo incapaz. O que eu podia fazer? Gritar? brigar? reprimir?  Eu jamais trataria mal um amigo que carregasse aquele olhar. 
- Filho, você quer carregar a sacolinha né? Eu sei! Tá pesada demais! Vamos fazer o seguinte, mamãe vai tirar algo de dentro e te devolve num peso melhor tá bom?
- Nãaaaaaaaaao!
- Miguel, eu sei que você está frustrado, que queria muito levar a sacola como tá, mas tá pesada filho. Você logo será capaz de carregar uma grandona como a da mamãe. Mas agora sua sacola tem que ser menor. Eu sei que você tá triste. Eu entendo. Mas vamos ver se você consegue levar agora, assim?
Dei um beijo na testa, diminui o peso da sacola e entreguei a ele. Entre soluços pegou na minha mão, enxugou as lágrimas e saímos. O semblante mudou e o choro deu lugar a um sorriso, deixando clara a satisfação do Eu consigo! 
Voltei pra casa pensando em como sou injusta, por diversas vezes. Como ignoro que o mundo não foi feito para ele. Nada é da sua altura, nada é do seu jeito, nada é adequado. Entendi um pouco do nervosismo e das explosões emocionais. Reconheci o meu papel. Não tenho que julgar, limitar, podar. O mundo já tem bastante limites. Meu papel é ajudá-lo a lidar com os limites que a vida lhe impõe. Ajudar a lidar com  a enorme dor que a frustração traz. Ajudá-lo a reconhecer suas próprias dores. Ajudar a entender o tempo e o momento. Agora, nessa adolescência infantil, ele precisa muito mais de compreensão e paciência que de acusações e repreensões. Não tem sido fácil, não será fácil. Mas ao encarar aquele olhar eu pude ver que pra ele tem sido muito mais difícil que pra mim. É em sua cabecinha de ser que chegou a pouco no mundo que a vida tem ganhado e perdido sentido. É ele quem tem experimentado sentimentos tão loucos e tão profundamente desconhecidos que o fazem entrar em curto circuito. 
Sem dúvidas, os terríveis e maravilhosos dois anos serão uma fase de enorme amadurecimento, de cada um de nós, como seres humanos e de todos nós, como família. Lá vamos nós para mais esta jornada.



segunda-feira, 24 de março de 2014

A Helena, com amor

Esta é uma carta a você, filha. Uma escrita que está dentro de mim desde que descobri esta gestação, desde que senti que aqui, em meu ventre, crescia você. Sim, filha, nós, mulheres, temos um sexto sentido, uma ligação especial com o mundo e com nosso corpo. E meu corpo me disse, em meio ao turbilhão que chegou com você, que em mim crescia uma força diferente, única e poderosa: uma fêmea.
Não vou te pedir perdão pelas lágrimas de tristeza que derramei - e que, por vezes, derramo.Elas foram sentidas, vividas e legítimas. Lavaram a alma e hoje, claramente, posso enxergar porque a vida me trouxe você.  Hoje, ao confirmar o que minha intuição me dizia, aceitei, de coração aberto, como até agora não o tinha feito. E te agradeço por ter escolhido nascer de mim. Te agradeço por me permitir viver o florescer de uma alma feminina, da forma que jamais vivi, livre.
Sim, filha, te ensinarei o feminismo. Mas não esse feminismo que nega a nossa natureza, as nossas diferenças, o nosso poder. Não, meu amor, não te ensinarei a negar a beleza de ter um útero, de gestar, de amamentar e de sangrar todos os meses. As torpezas do patriarcado não entrarão em nossa casa. Aqui amaremos sempre nossas curvas, nossos cheiros e nosso corpo. Não te falarei para fechar as pernas, sorrir contida ou se reprimir. Aprenderemos juntas que nada nos é proibido. O mundo é nosso. O sexo frágil não nos define. Não somos princesas. Não, você não é, e não será uma princesa. Você será o que quiser ser. Brincará de boneca, mas também de bola, de pipa e de carrinho. Vestirá rosa, mas também azul, verde, amarelo e todo o arco-íris que seu gosto e tom desejarem.
Por vezes, durante minha infância e adolescência, chorei envergonhada, desejando ser um menino. Ah, filha, te prometo lutar para que este fantasma jamais te ronde. Porque ser mulher é um presente. E sei que cada dia seu me fará enxergar o poder feminino como nunca vi. Te ensinarei a se amar. A entender que somos iguais aos homens em direitos, mas somos seres completamente diferentes.Temos com este universo uma ligação que os homens jamais terão. Geramos vida. Sentimos a vida. Cheiramos a vida. Intuímos, parimos, amamentamos. Nossos ciclos se conectam com a natureza. Nossas almas guardam segredos seculares. Somos impares, somos únicas. Somos fêmeas. Sem dúvida, guardamos em nós uma beleza sem tamanho.
Ah, a beleza. Quero te dizer que o mundo está louco. Que conceitos como beleza se misturaram com terríveis padrões distorcidos que nos aprisionam e oprimem. Mas acredito que posso te mostrar que independente do tamanho do seu nariz, do numero do seu jeans ou dos seus cabelos você será bela. Porque a mulher que ama o poder que carrega em si exala uma beleza indescritível. Ser mulher é belo, simples e complexo assim. Valorizaremos juntas cada detalhe dos nossos corpos imperfeitos e neles descobriremos a verdadeira perfeição. 
Te ensinarei, acima de tudo, a respeitar e ser respeitada. Exigir respeito, infelizmente, em nossa sociedade, ainda é necessário. Ainda vivemos em mundo no qual vítimas são culpabilizadas. Ainda somos diariamente bombardeadas por um sistema defasado e opressor. Mas nos protegeremos. E protegeremos a todas, porque unidas somos mais, podemos mais. 
Obrigada, minha cara, porque te libertando, libertarei a mim mesma. Aceito a responsabilidade de deixar para o mundo uma fêmea consciente de si e de seu poder. Aceito a nossa missão. E já te peço perdão. Perdão porque falharei inúmeras vezes. Mas posso te garantir que cada falha será movida por uma descomunal vontade de acertar, será regida por um amor sem limites.
E que você venha, Helena, resplandecente e luminosa, iluminando o mundo, como significa seu nome.
O mundo é bão, filha, o mundo é seu.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A menininha invisível

Hoje presenciei uma cena que me incomodou. Daquelas que fazem a gente refletir sobre um bando de coisas. Como de costume, saí no fim de tarde para caminhar com Miguel. Moramos em apartamento e, por mais que eu brinque bastante com ele ao longo do dia, nada como andar na grama e correr atrás dos cachorros dos vizinhos. Em meio a nossas andanças me sentei e deixei que o pequeno explorasse o mundo ao redor. Enquanto ele andava, pegava flores, arrancava folhas e corria sem ao menos olhar pra trás - com toda aquela segurança que me juraram que o colo farto lhe tiraria - um pequena de menos de três anos me fazia companhia. Ao ver meu filho se afastar, me perguntou, com sobrancelhas franzidas e olhar curioso:
 - Tia, pra onde ele vai?
 - Mexer na plantinha e ver as coisas por ali - como ele começava a se afastar muito do meu campo de visão eu o chamei. A pequena ouviu e começou:
 - Não vou lá, deixa ele no perigo sozinho. 
Entenda-se por perigo se afastar da mãe. Eu permaneci calada, observando aquele serzinho tão falante.
 - Ah, eu vou lá. - Disse, já caminhando em direção ao meu pequeno.
O que aconteceu depois daí que me incomodou, cutucou e entristeceu. Com um ar determinado, mas com uma certa raiva, ela agarrou meu filho pelo braço. Assim, sem calma, sem delicadeza, sem doçura infantil. Simplesmente o agarrou e saiu arrastando, pra perto de mim, enquanto falava:
 - Venha cá! Pronto, agora senta aqui e fica aí! - colocando-o sentado ao meu lado.
Meu filho é grande, quase da mesma altura que ela, e bem fortinho, mas diante do choque que a situação lhe causou, ele se deixou arrastar, com um olhar confuso, tentando entender o que aquela pequena criança estava fazendo. 
Fiquei ali, parada, boquiaberta. Aquela criança trouxe meu filho da única forma que ela achava possível. Ela lidou com ele como o seu cuidador, talvez a mãe, lidaria com ela em situação semelhante. Não pude deixar de me perguntar o que estamos fazendo com nossas crianças. E que adultos deixaremos para o mundo. Poderia falar de muitas coisas que a situação me trouxe, mas não gosto de alongar muito.
Me chamou atenção o nível de condicionamento comportamental a que esta criança é submetida. Explorar o mundo, ter curiosidade, andar, cheirar e viver é perigoso. É preciso ficar perto do adulto, andar de acordo com seu passos e conhecer o mundo apenas pelos seus olhos cansados. Se tiramos da criança a sede de viver, o que fica? Sou a mãe maluca que deixa o filho andar descalço, subir escada e catar pedrinhas e plantinhas no jardim. E que admira o sorriso de satisfação que cada coisinha dessas estampa no rostinho suado do pequeno. Sim, o mundo não anda lá muito hospitaleiro. Mas não preciso transferir ao meu filho as agruras que a idade adulta revela. Deixo que ele tenha apenas as preocupações de criança. Aos poucos as noções de cuidado consigo e com o outro são introduzidas, mas sem ofuscar o brilho das descobertas que a curiosidade infantil traz.
Também não pude deixar de notar a ausência total de empatia. Aquela menininha que não é enxergada como ser humano pelos cuidadores, não conseguiu enxergar meu filho. Daquela reprodução violenta de comportamento, enxerguei o quanto ela é violentada diariamente. O quanto seus sentimentos são ignorados. O quanto ela é tratada como propriedade de alguém. Articulada e conversadeira, ela não soube encontrar em todo seu vocabulário um única palavra gentil para chamar meu filho a segui-la. Não soube porque não a ensinaram. Ilude-se quem acha que ensina o filho a ser educado, amável e companheiro ensinando-lhe a falar obrigada e por favor. Não, eles aprendem com nossas atitudes. Eles aprendem a tratar o outro como são tratados. E na primeira oportunidade seguirão com o ciclo. O violentado violenta. 
Ouço sempre que a juventude bitolada, egoísta e desrespeitosa que vemos hoje em dia é fruto de muito mimo dos pais. Que é uma geração que não apanhou. Vendo a cena que vi hoje só constato que nossos jovens alienados são fruto de uma geração negligenciada. Uma geração que não foi olhada nos olhos. Um geração que não foi ouvida. Que não mereceu um explicação, por menor que fosse. Que não aprendeu a ter empatia, porque esta palavra nunca fez parte de seu cotidiano. Um geração ignorada, invisível. Respeito a gente ensina respeitando, simples assim. Não há palmada, não há agressão, não há castigo que ensine mais que o exemplo. Criança vê, criança faz. Atitudes falam bem mais que o que sai da nossa boca. Observe o comportamento do seu filho quando ele se sentir em superioridade física. Posso te dizer com toda certeza que será mais revelador que olhar-se no espelho.

sábado, 18 de janeiro de 2014

E chega um novo amor

Passei uns dias sumida. Tudo bem, não sou uma blogueira muito assídua, mas dessa vez o hiato foi longo. Longo e absolutamente necessário. A vida mais uma vez me mostrou que não estou no comando de absolutamente nada. Mais uma vez sacudiu todas as certezas, mudou os planos e tirou tudo do lugar. Eis que me encontro mais uma vez grávida. Assim, sem planejar - pelo menos não conscientemente - sem sonhar, sem querer. Um novo fruto se instalou no meu ventre, com a força e a certeza de quem quer nascer de mim. Sim, mais uma vez fui escolhida. Sem qualquer convite, sem aviso, cresce mais uma vez um novo ser. 
Como toda notícia sem aviso, esta me tirou o chão. Eu, mãe apaixonada, fêmea saudosa dos tempos de barrigão, não consegui enxergar qualquer alegria. Chorei. Choro de luto, de morte. Porque vida também traz morte. E me dei um tempo pra chorar. Chorei a morte dos planos, dos novos estudos, da retomada próxima a vida profissional. Chorei a morte da mãe de um. Chorei a morte do cronograma tão planejado por esta mãe. E chorei e chorei. Sem dúvidas, cada lágrima derramada foi essencial para que o sorriso voltasse a florir em meu rosto. Porque a lágrima lava a gente de dentro pra fora. E eu precisava desse banho interno. Olhei inúmeras vezes para Miguel, com apenas 15 meses - hoje com 17 - e pedi perdão. Perdão pelas mudanças, pela minha dor, pela minha futura falta de tempo. Perdão por ter um outro bebê enquanto ele ainda é um bebê. Perdão porque deixaria de ser apenas mãe dele.
Por diversas vezes ouvi, das pouquíssimas pessoas que sabem desta gravidez, que não tinha motivo pra chorar, que filho é benção, que filho é alegria. Sim, filho é isso tudo mesmo. Mas também é mudança, é responsabilidade, é dedicação, é entrega. E agora, finalmente com a alma confortavelmente entregue a um, terei que dividí-la para dois. Não é fácil, não será fácil. 
Com a certeza que não será fácil em baixo do braço, trilhei um caminho de aceitação, de choro, de sonho e, sobretudo de amor. E aqui estou. 12 semanas de gestação. Não sei quantas faltam, mas não há pressa. Hoje posso dizer, de coração aberto, que aceito mais um vez esse privilegio. Porque gerar outra vida é um presente. Ainda não posso me considerar feliz. Mas estou em paz. Que venha esta nova luz para abrilhantar ainda mais os meus dias. Que venha cheio(a) de graça. Que venha certo(a) de que será bem recebido(a). 
Ensino ao meu filho, diariamente, que amor não tem limite. Quanto mais a gente dá, mais recebe. É uma fonte inesgotável, é força que se multiplica, que trasborda. Pois então a mãe de um transbordará de amor para os dois. Cá estou, mais uma vez no começo do caminho. Voltarei ao RN molinho, com cheirinho de leite materno. E verei novamente os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras descobertas e os primeiros medos. As madrugadas novamente terão choros e fraldas de cocô. E mais vezes sentirei vontade de não ser mãe de nenhum. Mas agora terei dois sorrisos lindos, um bem banguelinho, para me mostrar que o sol brilha. E terei beijos nas duas bochechas, ao mesmo tempo. E o colo ficará cheio. E a cama ficará sempre quente. E escutarei bebenês por muito mais tempo que o previsto. E saberei que sou ainda mais amada que sou hoje. Mais vida em mim. Mais vida nada casa. Mais vida na vida. Que seja bem-vindo(a).

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Julgamentos, competições e cusparadas para cima

Desde o começo da gravidez frequento grupos de parto e maternidade, nas redes sociais. Conheci muita gente bacana, gente interessada em fazer diferente, gente que quer compartilhar conhecimento, gente que quer dividir as delícias e agruras da maternidade. Gente que quer criar gente diferente. Mas constatei algo triste e decepcionante no universo materno, a competição. Sim, mães tendem a ser competitivas. E nos grupos de maternagem ativa e consciente então, esta disputa atinge níveis assustadores. 
Antes que alguém se ofenda, não tenho o intuito de causar celeuma, nem de atingir quem quer que seja. Apenas sigo me surpreendendo com a incrível capacidade de julgar e menosprezar a maternagem alheia. Assim como o parto perfeito precisaria ser com a parteira da moda, com a doula estrela, de cócoras na água, de um bebê com 5 kg, a maternagem perfeita precisa preencher a todos os requisitos. Nada de televisão, nunca, jamais! Aplicativo no celular, para um bebê? Pecado capital! Nada de comida pronta, de chupeta, de mamadeira, de engrossante. Tem que amamentar linda e sorridente o guri de 5 anos, se ele assim o quiser. Cama compartilhada é lei. Se você descumpre uma destas regras, sinto lhe informar, tá fora do clubinho. Não vai ser aceita. E por mais que digam que não, sim, te consideram menos mãe. Ou MENAS, se assim o preferir. 
Ah, as tais menas. Eu confesso que não entendia porque tantas mulheres defendiam suas escolhas com um: "mas eu não sou menas mãe por isso.." Hoje entendo. Há um certo pedantismo em muitos dos discursos que vemos "dazativista". Um ar de eu fiz o melhor. Um tom de menosprezo. Uma real crença de que sim, a Menas é menos informada, menos dedicada, menos mãe.E é aí que mora o perigo.
Conheço muitas mães. Converso com pessoas que agem como eu, buscando uma criação voltada para a segurança emocional da cria, e pessoas que seguem o que todo mundo segue. Nossas posturas nos diferem, mas acredito que verdadeiramente o que nos move é igual. Amamos nossos filhos mais que a nós mesmas. Salvo as pouquíssimas exceções, toda mãe faz o que acha que é o melhor. Já não tenho a ilusão de que toda mãe saiba o que é melhor. Mas faz o que considera melhor. Será que alguém realmente acredita que a mãe que coloca coca-cola na mamadeira deseja prejudicar o filho? Será que a mãe que deixa chorando tem a real noção do tamanho do prejuízo emocional que está trazendo para a cria? Julgar a mulher que não acredita no seu próprio corpo para parir, amamentar e criar é como falar a uma vítima de estupro que se não quisesse que acontecesse, andasse com roupas maiores! É culpabilizar a vítima!
Vivemos em uma sociedade altamente patriarcal e preconceituosa. Aprendemos desde pequenas a fecharmos as pernas, a nos comportamos, a nos calarmos, a rirmos contidas. Será que este já não é um julgo pesado demais para que a mulher carregue? Ainda precisa ser apontada por outras mães? Você conseguiu informação? Que bacana! Compartilhe, divida, converse, acolha! Mas não espere que todas tenham a mesma sede de mudança que você. Antes de sentirmos necessidade de fazer diferente, precisamos confessar para nós mesmas que algo está errado, e que não pode permanecer como está, e isso não é fácil. Simplesmente respeite a mulher que não bebeu das mesmas fontes que você. Já me vi hostilizando. As vezes a gana de mudar o mundo nos deixa cega. Esquecemos que cada pessoa tem sua história e seu tempo. Demorei, mas tenho aprendido a não me intrometer na educação do filho dos outros. A minha opinião é dada quando solicitada. Com o máximo de respeito e paciência que meu jeito um pouco duro é capaz de ter.
Muito além de ter esta ou aquela informação, de saber mais ou saber menos sobre as evidências científicas, tenho comprovado diariamente que ser mãe é cuspir pra cima. Meu filho muda tudo e mostra que não estou no controle de absolutamente nada. Que não sou super nada. Que a maternidade perfeita é linda, ideal, mas não existe. Que todo mundo volta e meia pisa fora da linha, perde as estribeiras e manda a cartilha pras cucuias. E principalmente, que não existe mãe melhor ou mãe pior, mais ou menAs mãe. Amor de mãe é amor de mãe. Sem comparações, sem medidas, sem precedentes. Toda e qualquer tentativa de comparar e mensurar o que nos move é vazia e imbecil. É só mais uma cusparada, que muito provavelmente, nos atingirá em cheio a testa!


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Filhos melhores que nós.

Lá vou eu começar mais um texto com "A maternidade". Mas não posso mentir, foi a partir dela que muita coisa se transformou em minha vida. Sempre ela. Pois bem, vamos nessa. A maternidade foi um divisor de águas em minha vida. Não somente pelo amor insano que me apresentou, mas por ter me apresentado a mim mesma. Tenho trilhado um caminho longo, por vezes doloroso, mas necessário, pra dentro de mim. Parei de dourar a pílula, de enfeitar situações dolorosas e constrangedoras, de mentir para mim mesma. Tenho me desnudado de uma maneira irreversível. Tratadas as feridas novamente abertas, tenho ressurgido na figura de um ser humano melhor.
Fui educada com a maioria das pessoas da minha geração. Aprendi a obedecer a base de cintadas e palmadas.Ouvi por milhões de vezes que não tinha querer. Ouvi que se não parasse de chorar, sem motivo, ganharia um "belo" motivo pra chorar. Aprendi que não deveria ameaçar, a base de ameaças. Fui treinada para reprimir o choro. E como toda criança, aprendi que a culpa sempre era minha. Era culpada por apanhar, por ficar de castigo, pela impaciência do adulto. Não tinha a oportunidade de argumentar, já que decisão de pai/mãe não se questiona. Antes que achem que meus pais eram criaturas terríveis, preciso esclarecer que não são. São seres amorosos e especiais. Me educaram da forma que acreditavam ser certa. Não foi por falta de amor. Mas por falta de introspecção. Faltou-lhes o momento de sentir suas próprias dores e medos. Faltou, a eles, o silêncio e a oportunidade de se conhecerem profundamente. Faltou-lhes instinto. Faltou-lhes instinto porque não é próprio de nenhum animal educar a cria com agressões físicas. Este é um comportamento nosso, dos seres ditos inteligentes e superiores.
Essas crianças reprimidas emocionalmente, crescem e tornam-se os adultos com quem convivemos diariamente. Tornam-se nós. Não sabem lidar com suas emoções, iniciam e terminam relacionamentos por faltar-lhes capacidade de dialogar. Reprimem suas dores, mentem - para os outros e para si -, enganam.
Digo que a maternidade me guiou para uma jornada interior, porque a responsabilidade de educar um ser humano me fez questionar tudo o que sou." O que quero que meu filho herde de mim? Em que quero que ele se espelhe? Quais dificuldades sonho que ele não tenha? E de onde essas minhas dificuldades surgiram?" Não demorei muito a concluir que o adulto que sou é fruto da criança que aprendi a ser. Se hoje tenho extrema dificuldade pra controlar a raiva, é porque não fui ajudada a lidar com minhas explosões infantis. Sei que a única vez que "esperneei" no mercado, apanhei e não repeti o comportamento. Se acho que ameaçar normal,é porque fui muito ameaçada pelas pessoas que mais me amavam no mundo. Se seguro o choro e nego meus sentimentos mais íntimos, é porque fui treinada a fazê-lo desde muito nova. Não, eu não quero que meu filho seja igual a mim. Não quero que tenha as mesmas dificuldades de relacionamento. Não quero que tenha a minha incapacidade de reconhecer o motivo de minhas angustias. Não quero que não saiba expressar o que sente, como sente. Não quero que viva a ponto de explodir. Não quero ver nele uma continuação de todas as minhas inseguranças emocionais.
Existe garantia de que vou conseguir? Infelizmente não. Mas já dizia Einstein, não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes. Logo, se quero um adulto diferente, preciso fazer da sua infância diferente. Olhe ao redor. Observe o mundo. Algo está errado. Não há revolução que mude o cenário que vemos diariamente. Porque o problema está nos seres que fomos condicionados a ser. Não é óbvio que não podemos seguir os mesmos caminhos de nossos pais? Não seria insano fazer tudo igual e esperar que nossos filhos sejam pessoas melhores que nós? Quando reconheceremos que somos emocionalmente inacabados? Que temos corações em frangalhos como crianças abandonadas nos berços, chorando até adormecer? 
Não sonho com a profissão que meu filho seguirá. Não me importo se será bem sucedido financeiramente. Minhas preocupações vão muito além do que a forma que a sociedade irá enxergá-lo. Me preocupa o que ele verá ao olhar no espelho. Que homem ele enxergará. Me preocupa se será emocionalmente seguro. Se saberá reconhecer suas tristezas e alegrias. Se lidará com as dores e frustrações de uma maneira sábia. Se chorará suas angústias se gozará com plenitude suas vitórias. Se terá empatia com o outro. Se será um ser humano melhor que eu. Estou no caminho certo? Talvez. Mas sei onde dá o outro caminho, e não é lá que quero chegar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Mais uma epifania...

A maternidade é uma experiência transformadora. Ou reveladora, já não sei mais. Volta e meia me pergunto se esse ser que hoje sou é um Eu transformado ou um Eu revelado pela maternidade. Explico. A bem pouco tempo minha vida, minhas prioridades, meu sonhos e até meus pesadelos eram outros. Nunca, em hipótese alguma, sonhei que pariria em casa. Tão pouco que amamentaria um "rapazinho" - ouvi isso da dentista recentemente, que estou amamentando um rapazinho, enorme - de um ano. Muito menos que usaria fraldas de pano, dividiria a cama com o bebê e abandonaria a carreira. Imaginaria menos ainda que gostaria verdadeiramente destas tão intensas mudanças. Por isso me pergunto, a maternidade transformou ou revelou?
Começo a acreditar que não fui transformada. Passo a acreditar que me encontrei. A despeito do que muitos dizem, que viver em casa com o filho é improdutivo e frustrante, tenho me sentido altamente produtiva e feliz. Óbvio, existem os dias nebulosos. Mas estes sempre existirão, independente de nossas escolhas. A frequência que eles aparecem é que pode ser preocupante. Mas sim, voltando a mais esta epifania. A maternidade me desnudou. Depois de mergulhar tão profundamente em meus instintos, de viver com entrega a fase de fêmea parida, concluo que as roupas que tirei, lá no começo deste caminho, não me cabem mais. Não eram exatamente minhas. Não foram escolhidas pela minha alma, pelo meu desejo. Foram impostas, ditadas. Sufocavam, apertavam, incomodavam, marcavam. A tranquilidade e conforto que hoje sinto com minhas escolhas refletem que hoje sim visto as roupas feitas para mim. Escolhidas a dedo, confortavelmente ajustadas. 
A gente ouve tanta coisa desde que nasce que se distancia demais do que realmente somos. Permitimos que o mundo nos diga o que precisamos falar, comer, vestir, comprar, ouvir, gostar. Até a nossa rebeldia foi previamente planejada e imposta. Passamos anos desejando desejos que não são nossos.
Definitivamente não foram meus discursos que mudaram. Os discursos que sempre arrotei como verdades não eram meus. Mas a maternidade me deu de presente a tal pílula vermelha. E ai a gente começa a enxergar que necessitamos de menos do mundo e muito mais de nós. Por tanto, aos amigos que falam quase que com pena que parei a carreira ou que eu era muito boa no que fazia, apenas digo que, se é que importa,  estou feliz. E que esta é uma escolha genuinamente minha.
Não, não é felicidade modelo novela das oito. É felicidade de gente de verdade. É felicidade de ter a consciência tranquila. É felicidade de aproveitar o que realmente importa. É a felicidade de cozinhar um belo prato e saborear sem pressa. De acordar recebendo beijo babado de bebê. De poder parar no meio do dia, do nervosismo e da correria e brincar na sala. Felicidade de ter brinquedo espalhado pelo chão. De ler livro fazendo voz de macaco, de elefante e da mamãe urso.De tomar banho junto. De se espremer pra cabermos os três -papai, mamãe e bebê - na foto. Felicidade de ver os primeiros passinhos. De ouvir as primeiras palavras incertas. De admirar o sorriso durante o sono. De dividir a fruta, o prato, e o gosto. Não é essa felicidade que achei que teria um dia. Por anos a fio acreditei que a felicidade morava em produtos em prateleiras de lojas. E que precisava do trabalho corrido, do dia apertado e da rotina estressante para comprá-la. Engraçado que um serzinho que está no mundo a pouco mais de 1 ano que me ensinou o que realmente importa. Eles nascem sábios.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Partos no Parto

O parto me trouxe muitas mudanças. Não a chegada do meu filho, mas o parto em si. Pari dores, medos, frustrações, inseguranças, frescuras, preconceitos. Meu filho eu agarrei nos braços, o resto ficou ali, no misto de água e sangue na piscina. Pode soar estranho a quem nunca teve um parto respeitoso. Falo parto respeitoso porque parir normal da forma que acontece em grande parte dos hospitais Brasil a dentro não permite esta epifania. Pois bem, saí do parto transformada. 
Por muito tempo fui a mulher moderna, como manda o figurino. Afogada em cobranças de beleza, trabalho, tempo. Reproduzia discursos que me foram impostos de maneira tão natural, desde criança, que acreditava veementemente que eram discursos meus. Interiorizava muitas das incapacidades impostas por uma sociedade machista e puritana. Sem perceber me espelhava no padrão da mulher de plástico. Quem quiser um bom texto a respeito, dá uma lida nesta publicação da TPM, incrivelmente excelente.
Mesmo passando por transformações imensas durante a gestação, muito ainda precisava ser transformado. E eis que veio o parto. Na hora que eu não esperava, do jeito que eu jamais imaginei que seria. Em meus sonhos meu filho seria aparado por mim, em um parto tisunâmico, quase indolor. Mas eu não estava preparada pra isso. Eu tinha muitas coisas para parir no meu parto, não dava pra sair tudo assim, escorregando feito quiabo. E nas horas que caminhei pela casa, tudo mudava em mim. Mesmo totalmente irracional - e pra parir precisamos mandar a racionalidade pra longe - tudo se transformou. 
Depois de horas de dor, de bolsa rota, de mecônio, eu finalmente consegui por pra fora a fêmea feroz que sempre viveu reprimida em mim. A fêmea que enjaulei quando acreditei nesta sociedade asséptica, limpa, estéril. A fêmea que deixei de alimentar quando acreditei que a feminilidade cabia em saltos altos, pernas depiladas e "roupas sensuais". Mas o parto abriu a jaula. E ela saiu louca. E fizemos as pazes. E senti o cheiro de amor, de ocitocina e de sangue que estava no ar. Cheiro de mim. Descobri a doçura do cheiro de sangue. O sangue que por diversas vezes achei nojento, o líquido que acreditei ser um castigo mensal em minha vida. Não, o parto me mostrou que o sangue é meu e é bom. Aquele instante me faz agradecer diariamente a dádiva de ser mulher.
Parir doeu. Doeu muito. Mas toda a força avassaladora que estava em mim não sairia de maneira delicada. Precisava desta dor. E com a força que fiz, pus pra fora toda desconfiança que eu tinha que meu corpo não conseguiria. Deixei naquela água os medos que me impuseram durante toda a minha vida. Deixei de ser coitada. Saí do raso e fui fundo em mim. Vi muito além do que dizem ser uma mulher. Nesse olho no olho com a fêmea que sou, percebi que o corpo perfeito não cabe em números. Que perfumes não gostosos, mas que meus cheiros também são. Fiz as pazes com minha intuição, com meu poder e com meu sangue.
Inquestionavelmente saí do parto me sentindo poderosa, mais segura. Hoje pouco importa se meu cabelo cacheado não é considerado elegante, se minhas unhas não estão sempre feitas ou se meus sapatos de salto estão guardados em caixas no topo do roupeiro. Não caibo em padrões. Assim que pari olhei para aquele guri gordo e graúdo, respirei fundo e conclui que sou foda - não encontro palavra que consiga descrever melhor a sensação - e essa sensação ninguém consegue me tirar. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Para a patrulha anti-peito

Pra quem não sabe, hoje é o dia mundial da amamentação. Um dia de conscientização, de informação e de luta. Esta semana muitas manifestações serão realizadas pelo País, com o intuito de lembrar às mães e à sociedade o quanto amamentar é importante. Nas bandas de cá, em 6 dias completaremos 12 meses de amamentação. 12 meses de troca, de vínculo fortalecido, de olhares trocados, de amor líquido. Não posso negar, me orgulho demais de estarmos atingindo esta marca. Porque? Porque amamentar no Brasil é pra quem tem raça! Não, não é pra quem tem leite. Sinto informar, mas leite todo mundo tem. O que faltou à mãe que queria amamentar e não conseguiu foi informação e apoio. Pra amamentar não basta querer. 
Se você tem dificuldades com a amamentação, esqueça o chá que sua mãe mandou fazer, a mandinga que a sogra ensinou e, principalmente, o conselho do seu pediatra e/ou ginecologista fofo. Busque a ajuda certa, vá a um banco de leite, procure uma especialista em amamentação, alguém que realmente entenda do assunto. Todo o resto serve apenas para confundir e desencorajar. Mas meu post hoje não é pra explicar sobre a amamentação ou ajudar quem tá começando. Hoje me dirijo a você, que vira o rosto quando vê alguém amamentando em público, que acha um absurdo tirar o peitão na rua. Você que acha imoral amamentar um bebê de dois anos mas não perde uma cena da novela das oito! Você que carinhosamente chamo de patrulha anti-peito! É a você que dedico estas mal traçadas linhas!
Pra começo de conversa, vamos deixar clara a utilidade dos seios femininos. Eu sei que a mídia e a sociedade machista te ensinaram que os seios servem para seduzir e erotizar, mas essa não é exatamente a função principal dos peitões. Sinto muitíssimo te desapontar, mas a não ser que você seja um bebê, os seios não foram feitos para te satisfazer. Como em todos os mamíferos - sim, eu sei que você aprendeu isso na aula de ciências, somos mamíferos - as tetas servem para alimentar a cria. E se é pra isso que eles servem, nada mais justo que os utilizemos para seu devido fim. Então, saco as peitolas em qualquer lugar, a qualquer hora, para alimentar a minha cria. E não vejo motivo para me envergonhar. Se você, de alguma maneira, acredita que uma mulher que amamenta em público está querendo chamar atenção e/ou seduzir quem quer que seja, lembre desta lição. Tetas são para os filhotes. E por mais que você tenha uma mente de filhote, sua fase já passou.
Ah, jamais, nunca, em hipótese alguma, ofereça um paninho para uma mulher cobrir os seios. Você come de cara coberta, cara pálida? Porque acha que o pobre do meu filho vai se sentir mais confortável se alimentando com um pano na cabeça? Você come no banheiro? Então siga a mesma lógica, não espere que uma mulher se sente em um banheiro para alimentar uma criança! Tá vendo como a regrinha de ouro é simples e vale muito? Se coloca no lugar do outro que tudo fica mais fácil. O bebê está se alimentando, recebendo carinho e atenção da mãe. Engraçado que dar uma mamadeira não escandaliza ninguém. Tem algo errado, né não?
Ultimamente começo a sofrer uma pressão que não esperava que acontecesse tão cedo: O desmame. Alguém pode me explicar porque cargas d'agua as pessoas se incomodam tanto com um bebê mamando? Ah, seu pediatra disse que depois de um ano o leite materno não serve para mais nada????? Pois bem, façamos o seguinte, peça que ele estude bastante, faça uma pesquisa séria, publique em uma revista científica bem reconhecida e transforme a asneira que fala em argumento. E chega de mimimi. Ah, tem uma hora que a gente perde a paciência. Depois de quase um ano explicando, conversando e fazendo cara de alface, decidi partir para a grosseria. A teta é minha e o filho é meu. Se tá bom pra gente, ninguém tem nada com isso. Um dia ele para de mamar, na hora dele, no nosso tempo. Não se preocupe, nunca vi menino de 15 anos pendurado no peito da mãe. 
Agora vamos com a tia Elisama fazer um resumo das lições de hoje, repete comigo: " O peito serve para alimentar um filhote, vou deixar de ser machista e burro e respeitar o momento da amamentação. Nunca mais vou dar opiniões enfraquecedoras e desencorajadoras, nem falar do que não entendo. Também não vou oferecer paninhos, torcer a cara ou perguntar quando o bebê vai parar de mamar. O leite materno é saudável, forte e adequado."  Agora vá pro cantinho do pensamento e só saia de lá quando entender que a amamentação alheia não lhe diz respeito. Se não conseguir entender isso, corra para terapia. Só Freud explica.

P.S. O "cantinho do pensamento" é uma forma de educação inapropriada para crianças, utilizei no texto por ser dirigido a adultos. Não apoio nenhum tipo de castigo, nem físico, nem moral.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Sobre as birras e frustrações.

A cada dia constato que pari um lindo, genioso e determinado ser. Sabe o que quer, a hora que quer e o jeito que quer. E odeia ser contrariado. Grita, joga as coisas no chão. Berra desesperadamente, fica vermelho. As vezes puxa os cabelos. Diante de cenas como esta, a criatura que eu era enlouqueceria, consideraria uma tremenda afronta e sem dúvida reprimiria o comportamento com um castigo moral e/ou físico. Mas a criatura que hoje sou enxerga a beleza destes momentos. Mesmo as vezes querendo surtar junto, sei que está diante de mim uma demonstração de sentimentos genuína e forte, a frustração. A tal birra, que tanto fazem questão de alarmar e julgar como falta de limites, nada mais é que um ser frustrado exteriorizando toda raiva e desapontamento que sente. Não tem nada a ver com você, não tem a intenção de manipular, de chantagear. Não é o seu filho se enveredando para o lado negro da força. É seu filho sendo um humano que ainda não aprendeu a controlar seus próprios sentimentos. Simples assim.
Como você lida com suas frustrações? De que maneira age quando seus planos saem dos eixos? De que maneira gostaria de agir quando dá tudo errado?  A sensação de frustração é péssima. Mesmo após os vários desapontamentos que acumulamos com os anos, o fracasso continua a doer e desestabilizar. Agora reflita, se já é péssimo para você, adulto, que sabe exatamente o que está acontecendo, porque está sentindo e como resolver - ou não - a situação, imagine para um ser que não faz ideia de como o mundo funciona, que não sabe se expressar com clareza, que não sabe nem organizar as ideias com precisão. Passei a ter um pouco mais de empatia às explosões de raiva do pequeno. Eu iria ficar P da vida se meu marido me tomasse o celular enquanto eu estava usando, principalmente se o fizesse de maneira abrupta. E se me obrigassem a sair de um lugar, no ápice da minha diversão? Com certeza eu não reagiria de maneira branda, amável e pacífica. Agora porque esperamos tanto das crianças? Porque desejamos que tenham atitudes que nós não somos capazes de ter? Porque menosprezamos tão friamente seus sentimentos? Será que não merecem um pouco mais que frases imperativas e olhares repressores?
A maternidade é um aprendizado continuo e tenho crescido com meu filho, diariamente. Aprendi a enxergá-lo como gente e tratá-lo com o mesmo respeito que trato meu marido e as pessoas que amo muito. Se nos colocarmos um pouco no lugar deles, perceberemos que a tal "birra" não foi sem razão. E quando conseguimos enxergar que ali, a nossa frente, está apenas um ser humano com um forte sentimento de frustração,  baixamos a guarda e, com menos raiva ou estresse, nos oferecemos apenas para explicar e consolar. Quando este episódios acontecem aqui em casa, abraço meu filho, o pego no colo e explico porque a mamãe agiu daquela maneria. Falo que também estaria chateada se fosse ele, mas que infelizmente a mamãe não podia fazer diferente. E como faria a um amigo, o consolo. Em poucos instantes, em regra, o nervosismo passa e ele, com o mesmo olhar lindo e doce de sempre, brinca como se nada tivesse acontecido.
Com o desenvolvimento de sua personalidade e autonomia estas situações serão cada vez mais frequentes. Mas não me furto ao meu papel de mentora. Não calo as demonstrações de raiva, o choros de frustração. Não o ensino que deve calar seus sentimentos, mas a lidar com eles. Meu filho precisa saber que todos estes sentimentos são legítimos e humanos.  Estou certa de que será um adulto mais pacífico, seguro e amável que os que vemos por aí. Um homem que conhece seus sentimentos, suas dores e alegrias, sabe vivê-las com plenitude. Não calará suas frustrações, e também não se tornará agressivo por conta delas. Talvez escreva uma música ou uma poesia. Quem sabe pinte um quadro. De uma coisa estou certa, a cada "birra" aprendemos a lidar melhor com nossas dores e frustrações, Ele e eu.

terça-feira, 16 de julho de 2013

E quando você volta a trabalhar?

Ao longo da gestação muitas coisas mudaram em mim. A medida que a barriga crescia algumas convicções se firmavam e se mostravam como escolhas mais adequadas para nós - marido, filho e eu. Destas escolhas, a que mais impacto causou em minha vida foi deixar de trabalhar. Estava acostumada com o ritmo frenético de um escritório de advocacia, com clientes ligando, com prazos findando, com o dinheiro na conta no final do mês.Mas nada disso se mostrava prioridade após a chegada do meu filho, ele não se encaixaria bem nesta rotina. Optamos, então, por me dedicar exclusivamente a ele. E foi aí que descobri como a nossa sociedade está com os valores completamente distorcidos, e como as mulheres não sabem o que é machismo, tão pouco feminismo. Recebo incessantes cobranças de quando voltarei a advogar. Todos, sim, todos que me encontram perguntam quando volto ao batente...e meu filho tem apenas 11 meses. Já ouvi que estou desperdiçando meu tempo, que joguei os 5 anos de faculdade fora e que meu diploma - no caso, minha carteira da OAB - não deve ficar guardada em uma gaveta. E que é importante, para a mulher, que ela não dependa de um centavo sequer do marido.
Nos acostumamos tanto com a figura da mulher-mãe-profissional-esposa que achamos ser este o modelo perfeito. Nos habituamos tanto a babá trocando as fraldas, dando leite na mamadeira e educando nossos filhos que não aceitamos quem sai deste padrão. Pois bem, decidi sim trocar fraldas, amamentar, cozinhar e cuidar do meu filho. Optei por estar presente quando a primeira palavra foi falada, por amparar os primeiros passos. Decidi não assistir, de longe, o desenvolvimento da minha cria, acreditando que quantidade e qualidade de tempo são igualmente importantes.
Desde quando ficar em casa, educando o meu filho, dando-lhe amor, carinho e atenção é desperdício de tempo? Algo está errado em seus conceitos! Criar um ser humano melhor deveria ser a nossa prioridade! Passar ao filho os valores que acreditamos, direcionando num caminho bacana está muito longe de ser improdutivo! Esta juventude vazia, consumista e alienada é fruto de uma sociedade que estimula a tercerização de suas responsabilidades. Decidir trabalhar em home office, mudar o rumo da carreira, foi um decisão consciente e acima de tudo responsável, uma decisão que abraça um conceito de vida que refletirá nas próximas gerações. Os anos de faculdade foram muito importantes e trouxeram uma vivência e experiência que são aproveitados diariamente. É um pensamento muito restrito e limitado acreditar que um diploma te amarra a uma única profissão para sempre, até que a morte os separe. Saber mudar e utilizar o aprendizado em outras realidades é inteligência emocional. 
Mas o argumento que, sem sombra de dúvidas, me tira do sério é que mulher não pode depender de marido. Pra ser respeitada por meu marido preciso dividir com ele as contas da casa? Jura? Tá aí outra demonstração de que falta a quem pensa assim um pouco de raciocínio lógico e inteligência. Não posso falar do casamento alheio, mas no meu o respeito independe de conta bancária ou de trabalho. Nos respeitamos por sermos quem somos e pelo que nos tornamos juntos. Respeitamos nossas escolhas por merecemos respeito, simples assim. Somos companheiros e parceiros, nossas vitórias e derrotas são divididas. Quem paga o aluguel ou a conta do restaurante pouco importa. Portanto, querida amiga-mulher-pseudo feminista, se você realmente acredita que para se fazer respeitar precisa de um contracheque, sinto te informar que você é tão machista quanto quem sonha com Amélia. O direito de escolha é um alicerce da liberdade. Falta-lhe auto-estima e auto-confiança suficientes para sustentar as suas escolhas.
Não posso considerar uma opção fácil, principalmente para quem está acostumada a ter um emprego pra chamar de seu,  mas tem sido gratificante e rico. Jamais imaginaria perder cada descoberta e cada conquista do meu filho. Se um dia abandonarei o projeto da lojinha virtual e voltarei à advocacia? Não sei, não estou nem um pouco preocupada com isso. Pouco me importa a ansiedade alheia. Nas bandas de cá tenho utilizado meu tempo, meus esforços e minhas energias na produção de algo imaterial, impalpável e imensurável: um ser humano mais humano.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Eu não agradeço as palmadas que levei

Volta e meia vejo um amig@ postando em uma rede social imagens valorizando as palmadas, com dizeres do tipo: "Eu agradeço aos meus pais as surras que levei." Sinto muito, meu querido amigo, se você agradece aos seus pais as palmadas que você levou. Não, eu não agradeço as palmadas que levei. Não agradeço por ter aprendido que a violência é uma forma de linguagem. Não agradeço por ter aprendido que o mais forte pode bater no mais fraco. Não agradeço ter aprendido que, as vezes, a violência é uma forma legítima de amor. Sim, violência. Palmadas e cintadas são violência. Agradeço sim, aos meus pais, pelo carinho e amor que sempre me deram. Pelas várias vezes que se acalmaram e conversaram. Pela preocupação em me manter sempre bem. Pelo colo, pelos beijos, pelos abraços. Por terem acreditado em mim. Agradeço, principalmente, o exemplo que sempre me deram, esse sim, me educou e me moldou. Agradeço ao meu pai por me mostrar que preciso ser determinada, forte e sincera. À minha mãe por me ensinar a ser sempre compreensiva e branda. Inúmeros são os motivos que tenho a agradecer. Mas a palmada não está entre eles.
Meus pais apanharam bastante dos meus avós, tiveram uma criação sem diálogo ou respeito. Pai manda, filho obedece, sem explicações, sem conversa. Aprenderam que a surra educa. Diante da criação que tiveram, fizeram o que acreditavam ser o melhor. Introduziram o diálogo e deixaram a palmada apenas para as situações em que " a conversa não resolvia". Certamente meus avós apanharam ainda mais dos meus bisavós. Mas esse ciclo acabou aqui. Nesta família, a minha geração foi a ultima a ser agredida fisicamente. Meu filho não o será. Não é esta a linguagem que usamos e usaremos em nossa casa. Ele não aprenderá que violência educa. Não aprenderá que encerrado o diálogo a agressão será a única saída. Já acreditei que a palmada é uma forma legítima de educar. Inofensiva. Escondia os reais sentimentos que ela sempre me causou. Aliás, esta é a conduta mais comum em toda vítima de violência. Negar que foi violentado. Negar o medo, o terror, a angústia, a dor. Se culpar. Acreditar que causou a agressão. Meu filho não conhecerá esse sentimento. Não olhará para a porta, ansioso e assustado, enquanto apanha, esperando que alguém chegue e o salve. Agressão física é descontrole. Ele não pagará pelo meu descontrole, não é dele a conta por eu ter pedido a paciência. Se eu perdi a paciência, sou eu quem devo me acalmar e recuperá-la. 
Como ensinarei meu filho a não ameaçar, se sempre o ameaço? Como ensinarei que não deve agredir os coleguinhas e os irmãos se eu o agrido? Como ensinarei que deve buscar sempre o diálogo se eu, adulta, não sou capaz de dialogar? Quando enxergaremos que palmadas são violência? Quando assumiremos, para nós mesmos, que fomos violentados?  Quando choraremos a nossa dor? Quando veremos, nos olhinhos suplicantes do filho agredido o nosso próprio olhar? Quando lembraremos que as surras nos trouxeram apenas medo e angústia, nada mais? Quantas vezes vemos em nós mesmos o comportamento dos nossos pais? Aprendemos mais com os exemplos ou com as agressões?
Te aconselho, caro amiga@ que apenas reproduz um discurso irracional, a parar e pensar. Te aconselho a voltar um pouco à infância e, sem fazer piada ou esconder seu sentimento, pensar em cada vez que levou uma "inofensiva" palmada. Deixar de lado as velhas verdades e sentir suas próprias dores.Verá que jamais aprendeu algo de bom com uma palmada. Que não repetiu o "erro" apenas por medo. Que com a palmada aprendeu apenas a não questionar, a se anular, algumas vezes a mentir. Enxergará que as palmadas refletem até hoje, negativamente, em sua vida. Antes de levantar a mão para o seu filho, lembre do horror que sentia quando via uma mão erguida. Use a mão para acarinhar. Existem maneiras positivas de educar e ensinar. Não é fácil, mas é gratificante. Quebre os ciclos, mude o rumo. Agradeça aos seus pais o que realmente merece agradecimento. Eles com certeza merecem muitos agradecimentos. Meus pais me amaram e amam muito. Buscaram em todo o tempo acertar. Mas erraram, e este erro eu não quero e não vou repetir.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A consciência e a maternidade consciente

Ser mãe é uma delícia, isso é inegável. Não é perfeito, mas nada o é. Vivemos para o filho durante algum tempo, priorizamos seu bem estar, sua saúde física e emocional, abrimos mão de muito do que fomos para melhor atender as demandas destes pequenos seres que chegam transformando nossas vidas. Abdicamos de nós mesmas, diariamente. Já escrevi aqui sobre o mito da mãe 100% feliz, satisfeita e realizada. Mas até que ponto temos que abdicar de nós mesmas? Até que ponto é saudável para nós - e para eles - que esqueçamos de nossas necessidades? E quando o maternar de forma consciente passa a ser uma obsessão irracional, que escraviza e oprime tanto quanto o "todo mundo faz"? 
Participo de muitas discussões, a maioria on line, em redes sociais, sobre a maternidade ativa e consciente e tenho percebido que criou-se uma padrão de comportamento, pré-requisitos que devem ser preenchidos para que uma mãe possa ser bem vista e benquista. Importante parir em casa, deixar o emprego para ser mãe em tempo integral, só comer orgânicos e eliminar por completo a vida social nos primeiros anos de vida do baby. Cinema, nem no CineMaterna. Pecado mortal deixar o filho com a avó para ir ao salão fazer a unha ou simplesmente para dormir um pouco e descansar. Todas estão sempre vigiando, de olhos vívidos e ouvidos apurados, prontas para criticar qualquer comportamento fora do padrão. E assim, buscando fugir de um mundo alienado, caímos em outro. Não me entendam mal, não estou aqui defendendo as cesáreas eletivas ou a terceirização da educação. Jamais. Mas acredito que maternar de forma consciente exige consciência em cada decisão, não um padrão pré-estabelecido no qual não se pode questionar, duvidar ou escolher um caminho diferente. 
Logo após o nascimento do meu filho, na ânsia de fugir do senso comum, busquei seguir o caminho oposto. Hoje passados quase 11 meses, tenho percebido que ser consciente não é apenas agir de maneira diferente. Não vejo diferença entre a mãe que dá mamadeira porque todo mundo dá da mãe que amamenta porque lhe falaram que deveria. Ambas agem sem consciência. Ambas terceirizam suas escolhas. Ambas seguem cartilhas. Ser consciente não é isso. A maternidade consciente não nos tira o direito  a escolha, muito pelo contrário, ela nos abre um leque de opções. Ela nos mostra que não temos obrigação de agir desta ou daquela forma. Ela amplia os horizontes. De posse de muita informação podemos eleger a melhor escolha. Normalmente busco as evidências cientificas quando preciso decidir algo em relação ao meu filho. Leio, pesquiso, me informo. Mas nenhuma leitura me vincula, nenhum método me aprisiona. Por diversas vezes agi  de maneira diversa da "cartilha". Já contrariei orientações dadas pela OMS. Mas o fiz de maneira consciente. Fiz conhecendo o risco das minhas escolhas, assumindo as consequências, os eventuais danos. É   esta clareza que nos difere de quem simplesmente segue a manada, sem nada questionar. A capacidade de entender, conhecer e assumir os riscos de cada escolha.
Neste primeiros meses de vida, quase que primeiro ano, meu filho não ficou longe de mim por mais de 2 horas, mesmo nestas situações, o longe era ali, na esquina. Todas as ocasiões que saí, o levei comigo. Saí muito pouco, em comparação com a vida antes de sua chegada. Mas esta escolha não me oprimiu. Não tenho sofrido com minhas decisões. E, caso perceba que minhas escolhas estão causando dores além das normais, irei rever meus conceitos. Simples assim, sem qualquer culpa. Percebi que preciso, além de atender as necessidades do meu filho, atender também as minhas. Não uso chupeta, mas por diversas vezes coloquei meu filho no peito porque precisava que se aquietasse, e não vejo motivo de me sentir mal com isso. Já fingi estar dormindo pra ver se ele dormia também. Não deixei de assistir aos seriados que gosto, mesmo quando Miguel está acordado. Continuo comendo pão, brigadeiro e pizza, enquanto ofereço uma fruta para ele. Lanchamos frutas e comidas saudáveis juntos, mas percebi que gosto de determinados alimentos e decidimos - marido e eu - não abrir mão. Mudei muita coisa em minha vida. Coisas que jamais imaginei que mudaríamos. Mas deixei um pouco de mim inteiro. 
Talvez seja chegado o momento de rever nossos conceitos e decisões. Quantos deles são realmente nossos? Quantos nos oprimem porque fogem da nossa vida, da nossa realidade? Sigo buscando cada vez mais consciência e ciência nos meus caminhos, cuidando para que o afã de fugir de uma manada não me empurre, cega e alienada, para outra. Conscientemente livre.



segunda-feira, 17 de junho de 2013

Carta a uma amiga grávida

Querida amiga,

Não tenho a pretensão, com esta carta, de te preparar para o turbilhão de emoções e mudanças que estão por vir. Não se engane, você jamais estará preparada. Então, sente e respire. Relaxe. A gravidez recém descoberta passará mais rápido do que você imagina. Em poucos meses o bebê que hoje é só uma manchinha no ultrassom estará em seus braços, te olhando fixo e revirando sua vida pelo avesso. Os dias passarão acelerados, curta a gestação, você sentirá saudades imensas dela. Lembro que, logo quando descobri a gravidez, torcia para que o tão sonhado dia do parto chegasse...mais pro final, torcia para que a gestação não acabasse nunca. Sei que você ouvirá um milhão de opiniões e absurdos sobre a gravidez, mas quem te fala aqui é uma apaixonada pela barriga. Uma maluca que se sentiu tão linda e fêmea com a gravidez que desejava passar um ano grávida. Não é romantismo. Senti dores, incômodos. Uma azia que  me queimava por dentro e me dava a clara sensação de que o pequeno estava acendendo uma fogueira ou soltando fogos! Mastigava gelo como se fosse chicletes. Mas se ter um filho fosse só a gravidez, eu já estaria com o segundinho aqui, crescendo em mim. Acredite quando falo que você sentirá saudades da barriga. Você jamais olhará uma gravida com os mesmo olhos de antes da gestação. Aliás, vale te informar, você jamais olhará o mundo com os mesmo olhos de antes da gestação. Tudo muda. Se permita mudar. Não lute, não evite o inevitável. Esta mudança é necessária. Deixe que, nestes meses que se seguem, cresçam seu filho e seu novo eu. Quando engravidei, achava fraldas de pano um retrocesso, acreditava que amamentaria apenas por 6 meses, via na surra uma forma de educar - talvez a única e pregava a eficácia de deixar chorar(oh, God, que vergonha). Eis que eu, que sempre fui uma mulher altamente consumista e "moderna" me tornei uma "índia". E tenho que confessar, me orgulho muito de me permitir transformar e mudar. A gravidez foi um divisor de águas na minha existência. Deixe que o seja na sua também. Esqueça o que todo mundo faz, o caminho mais largo. Trilhe sua própria trilha.
Não posso deixar de falar: gravidez não é doença. É saúde. Muita saúde. Saúde para dois. É o ápice, o auge. É a fêmea na plenitude de seus instintos. Se permita ser fêmea. Se permita se animalizar. Permita que seu instinto te guie. Aproveite as sensações aguçadas e maximizadas pela gravidez. Sinta os cheiros, abuse do paladar apurado. Respeite as ânsias, as dores, os enjoos. Se sinta linda. Se veja linda. Você está linda, e ficará cada dia mais bela. As curvas que a gravidez te dará te embelezarão ainda mais. Cuide do ganho de peso, da pele, da alimentação, mas não se apavore com isso. Cada marca que ficará te fará lembrar de dias felizes. Ainda me emociono com cada fotografia minha grávida. Aquele brilho nos olhos foi único. O brilho de carregar um novo ser. 
Você sentirá algo imensamente privilegiado: os movimentos do seu filho. As tremidinhas iniciais se tornarão chutes fortes e vigorosos. O primeiro movimento é indescritível, único, mágico. Quando senti o primeiro chute, estávamos lá pelas 18 semanas, uma lágrima de emoção escorreu. Seguida de várias outras. Daí por diante os chutes e movimentos se tornaram as respostas às longas e intermináveis conversas que tínhamos.Ah, as lágrimas. Estas se tornarão companheiras. Ora de alegria, ora de medo, ora de dor. Acostume-se a chorar. A se emocionar. Chorei algumas vezes em propagandas de Tv. Chorei ouvindo música. Chorava ao ouvir o coração do meu pequeno. A gravidez nos deixa absolutamente sensíveis. E essa sensibilidade é o que nos faz entender as necessidades de um ser que não fala e que se comunica, muitas vezes, apenas com o olhar. Mas não se engane, junto a essa sensibilidade, nasce uma força sobrenatural. Você virará uma leoa. Uma fêmea brava e feroz. Você descobrirá que seus limites vão muito além do que conhecia. Se respeitará mais. Se amará mais. Se conhecerá. O mundo não será um mar de rosas. Você sentirá uma dor tão profunda que jamais imaginou sentir. Sentirá vontade de fugir, de sumir, de desaparecer. E quem sabe um dia aprenderá a conviver com essa dualidade de sentimentos que um filho traz.
Não posso deixar de aconselhar que lute pelo parto. Lute. Se esforce, corra se preciso. Fuja dos médicos que desencorajam, do sistema que enfraquece, do capitalismo voraz que nos reduz a nada. Não se permita violentar. Parir é importante. Lutei firmemente e me sinto feliz por ter vencido a guerra. Colocar seu filho no mundo, você mesma, é mágico. Exija respeito. Se informe, leia, estude. Não entregue sua gravidez ao médico, não confie no sistema, não seja coadjuvante do seu parto. Assuma o protagonismo da gestação e do parto. Não seja uma paciente. Não, não na gravidez, não no parto. Assuma as rédeas e confie em seu corpo. Esqueça os úteros hostis e os cordões assassinos. Não há lugar mais seguro, para seu filho, que dentro de você. Seu útero foi projetado para acolher. Seu corpo foi feito perfeito para parir. 
Vou ficando por aqui. Falar de gravidez me faz render o assunto. Espero, sinceramente, que você consiga viver a beleza de engravidar. Que você consiga se reconhecer linda. Que você consiga se entregar de corpo e alma. Que você consiga respeitar seu corpo e seu momento. Que você se permita metamorfosear e renascer. Viva com paixão. 

Um beijo 


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um papo sobre a manha

Sou uma pessoa muito educada. Costumo conversar com as pessoas, ouvir e responder educadamente. Mas tem coisa que me faz perder a paciência, as estribeiras, a educação, o bom humor. Das muitas coisas que me irritam, a que encabeça a lista do top 5 é que bebê faz manha. Ah, dá vontade de virar as costas e deixar a pessoa vomitando besteira sozinha. Minto, dá vontade de mandar pra um lugar bem bonito e fofinho. Só que não. Já parou pra procurar o significado de manha no dicionário, cara pálida? Você realmente acredita que um bebê, que não sabe satisfazer suas necessidades mais básicas e primitivas sozinho, consegue ser astuto e ardiloso? Jura? Do fundo do coração? 
Acreditar na manha é, no mínimo, ilógico. Um bebê que acabou de sair da barriga da mãe,que não faz ideia de como o mundo funciona, nem mesmo de quem ele é, que precisa que lhe limpem a bunda suja, alimentem e vistam é obviamente incapaz de ser ardiloso. De maquinar qualquer coisa que seja. Incapaz. Não possui capacidade neurológica ou emocional para isso. Não precisa ser um neurocientista pra saber, qualquer um que pare dois segundos para ligar os pontos consegue enxergar. 
Bebês são seres dependentes. E são dependentes não apenas física, mas emocionalmente. Precisam de nós para que construam sua própria identidade e visão de mundo. Precisam de apoio emocional, carinho, chamego. Opa, mas quem não precisa? Amo dengo, amo carinho e tem dia, que se eu pudesse, ficaria abraçada com o marido, deitada na cama, vendo um filminho e jogando conversa fora. Ok, normalmente estes dias ficam apenas na vontade. Porque sei que temos que trabalhar, porque temos nossas atividades e porque ainda não viramos hippies  - mas tenho cogitado bastante a ideia. Pois bem, se eu, pessoa adulta, amo um carinho, imagine uma criancinha que acabou de chegar nesse mundo e nem faz ideia que existem necessidades emocionais e necessidades físicas? Tudo é fome, tudo dói, tudo precisa ser atendido. A fome do peito dói como a fome de amor, de carinho, de aconchego. Ninguém explicou aos bebês que no mundo invertido dos adultos as necessidades emocionais são desprezadas. Eles ainda não sabem que calamos os nossos gritos por atenção, que nos acostumamos a dor da solidão. Ainda não aprenderam a se reprimir. Ainda não embruteceram. Então choram pelo colo, pelo carinho pela atenção. Choram como as vezes queremos chorar pedindo que nos abracem, pedindo um ombro amigo. 
Alguém vive só de comida? Você não precisa de nada além de roupas limpas e comida na mesa? Nada mesmo? Não precisa ligar pra um amigo, falar com o namorado, tomar um chop com a galera? Não precisa de abraço apertado, de beijo demorado e de cafuné? E porque temos que acreditar que bebês precisam apenas de limpeza e comida? Até nosso animalzinho de estimação recebe um carinho na barriguinha, além da ração e do cantinho pra dormir. Não faço ideia de quem iniciou essa conversa de manha, mas posso afirmar que, além de muito egoísta, esse ser era muito infeliz. Porque quem recebe dengo gosta de dar. Quem tá feliz de verdade, gosta de fazer feliz. Quem curte o aconchego de um abraço, gosta de abrir os braços pra aconchegar. 
Pra você, que acredita que criança faz manha, aconselho que deixe de se reprimir. Curta mais abraços apertados. Curta mais beijos longos, daqueles que fazem nossa alma se sentir beijada. Durma de conchinha. Peça um cafuné, aquele carinho de levinho na cabeça, que faz a gente amolecer e dormir. Receba mais cheirinho no cangote. Depois de doses cavalares de carinho e dengo, você entenderá que a necessidade de aconchego é tão importante quanto a necessidade de comida. Que a falta de carinho não mata fisicamente, mas mata a alma e nos põe em um estado vegetativo. Ah, você vai saber que um carinho bem feito faz a vida valer a pena. E vai entender que a criança que chora por aconchego sabe que solidão dói no estômago como a fome. Quem sabe assim seus dias se tornem menos amargos. Acredito verdadeiramente que se alimentarmos esta fome de amor, e ensinarmos aos pequenos que as necessidades emocionais também precisam ser atendidas e supridas, o mundo um dia será um lugar bacana de se viver. Tenho esperança. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mãe também é gente.

O dia das mães está chegando. Muita propaganda linda, muita homenagem emocionante. Em diversas delas, esqueço todo o consumismo que ronda o dia e me sinto verdadeiramente prestigiada. A gente merece. Mas merece muito. Já escrevi aqui que tem dia que a gente sente vontade de fugir, correr pra bem longe e não voltar nunca mais. Exatamente por esses dias que tenho visto a maternidade com menos romantismo. Tem frase e propaganda que vejo que tenho vontade de gargalhar. "Ser mãe é viver em eterno estado de graça." Jura???? Amiga, tenho certeza que você não é mãe. Por diversos momentos meu estado emocional está muito longe da graça, chega a beirar o outro extremo. 
Acho uma tremenda injustiça essa idealização da mãe perfeita, linda, sorridente e feliz. Essa fantasia de que somos satisfeitas e dedicadas em todo o tempo só faz com que acumulemos frustrações. Jamais alcançaremos essa constante felicidade que nos empurram como uma obrigação diária. Nada nesta vida traz só alegria. Um filho não é uma exceção. Então, se você acredita que sua vida pós maternidade será uma propaganda de margarina, meus pêsames. A realidade irá lhe frustar fortemente. E você se sentirá culpada diariamente por ter sentimentos que alguém lhe disse que nenhuma mãe tem. 
Tem dia que ser mãe é bem fácil. Tem dia que acordar de madrugada pra amamentar é um prazer. Que brincar o dia inteiro com o filho faz tudo valer a pena. Dias que somos genuinamente felizes e satisfeitas, gozando de um amor tão descomunal que não parece possível.Mas tem dia...hum...tem dia que o conto de fadas parece um pesadelo. Tem dia que o choro do seu filho ecoa de uma maneira tão estridente e irritante que você tem que contar até um milhão pra se acalmar. Tem dia que o cansaço é tão grande que levantar na madrugada é um sacrifício enorme, que só de ouvir o bebê reclamar dá vontade de fugir. Já acordei o marido e pedi que pegasse meu filho, pra que eu pudesse sair do quarto, respirar, tomar um ar e voltar, mais calma e tranquila, porque a vontade era de fazer uma besteira.
Mas antes que me julguem uma péssima mãe, digo que, com muita segurança, me considero uma excelente mãe. Sem culpa. Apesar de todas as vezes que senti uma vontade imensa de deixar meu filho chorando desamparado, eu o tomei em meu colo e o acalmei. Apesar de todas as noites que tive uma enorme vontade  de enfiar um calmante na garganta do pequeno - e na minha - eu levantei de hora em hora durante a madrugada para amamentar e ninar. As poucas vezes que falei algo que não deveria, em um momento de extremo estresse, pedi perdão, abracei ele e expliquei que mamãe é humana. Demorei um pouco para perceber, mas todas as vezes que senti ódio do meu filho, fui humana. Não sou super nada. Não desejo ser super nada. Já senti raiva da minha mãe, do meu pai, do meu marido. Então, nada mais humano que vez ou outra sentir raiva do filho, da maternidade, da vida. Sentimentos negativos fazem parte da vida, fazem parte de todas as relações. E em uma relação tão forte e simbiótica,os sentimentos são fortes e exagerados.
Nesse dia das mães que se aproxima, desejo apenas que idealizemos menos a figura materna. Que sejamos mais compreensivos. Mães também são gente. Não estamos no pedestal. Me doou inteiramente, vivo negando a minha vontade para pôr o bem do meu filho em primeiro lugar, mas isso não é fácil. E nem todas as vezes que abdiquei de minha vontade ou adiei um sonho, o fiz sorrindo. Nem todas as fraldas foram trocadas com satisfação. Nem todas as vezes que o ninei, e nino, o faço cheia de prazer. Nem todas os meus olhares para o meu filho transbordaram o mais puro amor. E não tenho a ilusão de que isso vá mudar. Porque esta dualidade de sentimentos faz parte da vida. Portanto, aceitando minha condição humana, sei que a maternidade me trará vários sentimentos que não constarão no cartão de dia das mães. Nem na propaganda da Natura - linda, por sinal. E que nenhum destes sentimentos abalarão o amor que sinto. Se deixaria de ser mãe após tantas descobertas? Jamais. Saber que venço meus piores instintos por meu filho me mostra que mereço ser homenageada. Não por ser perfeita, não por ser uma super mãe, não por ser feliz e dedicada com tudo. Mas por ser feliz e dedicada apesar de tudo.