domingo, 27 de julho de 2014

Relato de parto - Nascimento de Helena

Há uma semana Helena vinha. Aos poucos, no tempo dela, pra me ensinar que cada vida tem seu tempo e que nada está sob meu controle. Foi no domingo que tudo começou. Foi na noite de domingo que nossa jornada se iniciou, hora juntas, hora separadas. Ela para fora e eu pra dentro de mim. Mas não dá pra começar este relato pelo final, então vamos pro começo.
Quem acompanha o blog - se é que há algo para acompanhar, visto que tenho escrito tão pouco - sabe que não planejei esta gravidez. Helena veio porque queria vir, porque precisava nascer de mim. E eu dela. Durante a gravidez esquecia que estava gravida, absolutamente voltada aos cuidados com Miguel, hoje com 23 meses. Só não esquecia do parto. Porque ativista é assim, adora parto, adora parir, adora planejar o implanejável. Eis que planejei cada detalhe. Como não sabia onde estaria morando no final da gravidez - longa história, fica pra outro dia - decidi parir em Salvador, na casa da minha  doula-amiga-sócia. Contratei fotografa amiga e ativista. Convidei uma amiga, também ativista pra cuidar do meu pequeno e estar por perto também. Contratei a parteira mais tranquila e "hands off" que podia existir. Piscina, bola, banqueta. Era isso. O parto seria perfeito.
Para falar do meu segundo parto, não posso deixar de falar do primeiro. Do meu renascimento, da minha passagem para um mundo novo. A mulher que gestou Miguel não era uma ativista do que quer que fosse. Entendia o básico de parto. Bancou uma parteira que veio de São Paulo enquanto estava em trabalho de parto. Queria apenas parir, não importava mais nada. E conseguiu. Mas a mulher que gestou Helena queria o parto perfeito. Queria ser amiga da dor. Queria mais que parir. Queria o parto que seguisse o script. 
Como disse, pari na casa de uma amiga. Com quase 38 semanas nos mudamos para casa de Lu sem prazo para voltar. Na sexta-feira as amigas organizaram um lindo chá de bençãos. Muito amor, muita ocitocina e muita energia positiva. Helena viria num mundo de amor. Com a virada da lua o sábado foi de pródomos, contrações irregulares, moleza. E o domingo veio com leves cólicas. Cólicas que eu conhecia. Meu corpo me dizia que era o trabalho de parto vindo. Avisei a todas as envolvidas e ao marido: " Vou parir hoje ou amanhã, eu sei." E assim foi. No domingo a noite as contrações se ritmaram. As cólicas leves vinham com dor. Era o tão sonhado parto perfeito vindo. Arrumamos o quarto, escuro, iluminado com velas, bilhetinhos emanando boas energias "dazamiga parideira" nas paredes. Músicas cuidadosamente selecionadas. Piscina cheia, bola para apoiar. Aquela dorzinha do começo, que mostra que o corpo tá funcionando bem, que a hora está chegando. Chegaram a parteira e a fotografa. A minha irmã e a minha amiga. Estava tudo pronto, era só parir. 
As horas foram passando, a madrugada entrando. Pedi pra ficar só. Precisava me conectar comigo, com minha filha. Mas algo estava errado. Eu queria sentir novamente o que a mulher que pariu Miguel sentiu.Eu queria me entregar, ficar cega, surda. Queria me drogar de ocitocina. Mas não tem botão pra isso. Não dá pra desligar a racionalidade. Não dava pra deixar a ativista atras da porta. Eu não conseguia não pensar. Mas como era possível? Como que eu não conseguia sentir o trabalho de parto? Todas as vezes que ficava só, dormia. A racionalidade era tanta que eu sabia quando comer e o que comer. A clara sensação de que eu estava vendo tudo de fora não me abandonava. E isso me incomodava.
A cada ausculta viamos que apesar de tão desconectada com o parto, Helena fazia a parte dela. Estava descendo no seu ritmo, seguindo lindamente sua jornada. Se em minha cabeça o parto não estava acontecendo, no meu corpo a vida seguia seu rumo, como tinha de ser. Eis que amanheceu. O raiar da segunda me trouxe uma enorme sensação de fracasso. E me pus a chorar. Chorei como criança que vê seu castelo de areia, tão cuidadosamente arquitetado, desmoronar na força da maré. Chamei de cansaço, mas aquele era um choro de frustração. Chorei falando que não aguentava mais a dor, porque não aguentava mais tanta coisa fervilhando na cabeça, chorei porque não conseguia saber o que fazer. Eu, que utilizo o toque no colo do útero como método contraceptivo não conseguia me tocar! Estava tão desconectada que me tocava errado! Eu, que contratei a parteira falando que não queria que ela encostasse em mim, perguntava o que fazer! Não conseguia ouvir meu corpo, saber em que posição ficar, não conseguia sentir nada além da dor. Era muita frustração para um parto só. Nada estava como planejado, nada estava certo.
Miguel acordou, me viu, me deu beijo. Marido deitou um pouco comigo, me abraçou. Em todo o trabalho de parto, este momento me marcou muito. Eram os meus amores. Eles estavam ali, sem expectativas, pouco se importando se o parto seria rápido e lindo ou não. Eles tinham amor puro e calmo. Importava apenas que eu estivesse bem. Amor renova.
Depois de tanta frustração,resolvi mandar o parto perfeito pra longe. Vocalizar uma ova, eu queria mandar pro inferno. Aquela porra de dor não era minha amiga. Gritei, xinguei. Soltei um caralho que vinha da alma. Fui pro chuveiro e surtei. Surtei, bicho ferido. E pela primeira vez em todo o trabalho de parto eu estava inconsciente. De dor, de frustração, de raiva. Gritava feito louca. Me permiti odiar a parteira, as amigas, todas as ativistas do mundo, toda a ciência do parto. Espumei de raiva. Bradei. E ali, naquele ataque de ódio o restinho do colo saiu. Ali Helena desceu e ali eu quase pari. Mas a maldita ativista cabeçuda voltou com a baboseira de amiga da dor. Contive o animal ferido e voltei pra piscina, numa vibe: " dor, eu te aceito e blá, blá. blá." Me toquei. A bolsa não estourava e tinha formado uma bossa. Sentia a "bolha" ali, na saída, feito rolha, tapando o canal. Agora esperar a contração vir forte o suficiente para estourar a bolsa. Da forma que ela estava dificilmente viria empelicada. Eu estava exausta. Exaurida. Tanila, a parteira, viu o quanto eu estava fraca e sugeriu um pouco de soro glicosado. E colocamos soro em minha veia. Desanimada, abatida, cansada e novamente consciente pedi que ela rompesse a minha bolsa. Recebi de pronto uma negativa firme. "Não". Depois de reanimada pelo soro, conversamos novamente. Eu não tinha mais forças. Eu precisava continuar, mas não aguentava mais toda aquela dor. Não dava para esperar aquela bexiga na saída do meu canal estourar sozinha para só depois parir. Eu precisava de ajuda. Frustrada e ferida solicitei uma intervenção. Eu, que tinha planejado o parto mais "hands off" possível. Eu que tinha planejado tanto. Também muito frustrada ela aceitou: " Vou ter que fazer um toque - algo que eu não queria nenhum, de forma alguma - e preciso fazer isso durante a contração. Vamos andar, vamos mudar a posição, ela vai estourar sozinha.". "Não, Tanila, eu quero agora.". Nós duas, cada uma frustrada a sua maneira, aceitamos aquela intervenção. E muito rapidamente a bolsa rompeu. Ali, naquele momento eu entendi tudo. Ali, depois da ultima gota d'agua para o desmoronamento do meu parto perfeito, ali, depois de uma intervenção eu entendi. Em tantas horas eu estava parindo um parto, não minha filha. O parto é meio, não fim. O ativismo te enche de expectativas e te faz esquecer que o parto é uma via de nascimento. Eu estava ali para parir a minha filha! Assim que a bolsa rompeu eu senti a cabeça de minha filha descer, com uma contração. Assim que a contração foi embora, levantei, ainda com soro, mas com as energias revigoradas. Levantei pedindo a banqueta. 
Eu ia colocar Helena no mundo na próxima contração. Ela ia nascer. E a banqueta chegou junto com a contração. Sentei torta, cega, surda, louca. Sentei fazendo força e já com a cabeça da pequena saindo. E em mais uma contração ela estava em meus braços. Grande, gorda, cabeluda. Linda. Olhei pra ela e entendi que tudo aquilo foi pra que eu entendesse que era ela o motivo de estar ali. Foi assim, quando realmente resolvi parir, a parteira estava no banheiro lavando a mão e teve de vir correndo, a fotografa longe e quase perde o grande momento. De supetão, de surpresa. Ela queria nascer. Ela só queria que eu também desejasse seu nascimento. Ela querendo vir ao mundo e eu querendo o parto lindo e perfeito.
A placenta caiu no chão menos de cinco minutos depois. Um ploft que também me aliviou. Pedi que a pegassem. Beijei e agradeci. Agradeci àquela que cuidou da minha pequena dentro de mim. Agora era comigo. Marido e Miguel chegaram, recebi beijo, abraço e vi que agora éramos quatro. 
Ah, filha, obrigada. 
Obrigada por me ensinar que parir é perder o controle. 
Obrigada por vir no seu tempo, pra me mostrar que existem mais tempos que os meus no tempo do mundo. 
Obrigada por ter feito sua jornada enquanto eu me perdia nos devaneios e planos de mulher controladora.
 Obrigada por vir de mim. Tinha de ser assim. Tinha de ser eu, tinha de ser você.

Um comentário:

  1. Lindo demais. Me encheu de esperança e amor. Muita luz a vocês.

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