terça-feira, 22 de outubro de 2013

Filhos melhores que nós.

Lá vou eu começar mais um texto com "A maternidade". Mas não posso mentir, foi a partir dela que muita coisa se transformou em minha vida. Sempre ela. Pois bem, vamos nessa. A maternidade foi um divisor de águas em minha vida. Não somente pelo amor insano que me apresentou, mas por ter me apresentado a mim mesma. Tenho trilhado um caminho longo, por vezes doloroso, mas necessário, pra dentro de mim. Parei de dourar a pílula, de enfeitar situações dolorosas e constrangedoras, de mentir para mim mesma. Tenho me desnudado de uma maneira irreversível. Tratadas as feridas novamente abertas, tenho ressurgido na figura de um ser humano melhor.
Fui educada com a maioria das pessoas da minha geração. Aprendi a obedecer a base de cintadas e palmadas.Ouvi por milhões de vezes que não tinha querer. Ouvi que se não parasse de chorar, sem motivo, ganharia um "belo" motivo pra chorar. Aprendi que não deveria ameaçar, a base de ameaças. Fui treinada para reprimir o choro. E como toda criança, aprendi que a culpa sempre era minha. Era culpada por apanhar, por ficar de castigo, pela impaciência do adulto. Não tinha a oportunidade de argumentar, já que decisão de pai/mãe não se questiona. Antes que achem que meus pais eram criaturas terríveis, preciso esclarecer que não são. São seres amorosos e especiais. Me educaram da forma que acreditavam ser certa. Não foi por falta de amor. Mas por falta de introspecção. Faltou-lhes o momento de sentir suas próprias dores e medos. Faltou, a eles, o silêncio e a oportunidade de se conhecerem profundamente. Faltou-lhes instinto. Faltou-lhes instinto porque não é próprio de nenhum animal educar a cria com agressões físicas. Este é um comportamento nosso, dos seres ditos inteligentes e superiores.
Essas crianças reprimidas emocionalmente, crescem e tornam-se os adultos com quem convivemos diariamente. Tornam-se nós. Não sabem lidar com suas emoções, iniciam e terminam relacionamentos por faltar-lhes capacidade de dialogar. Reprimem suas dores, mentem - para os outros e para si -, enganam.
Digo que a maternidade me guiou para uma jornada interior, porque a responsabilidade de educar um ser humano me fez questionar tudo o que sou." O que quero que meu filho herde de mim? Em que quero que ele se espelhe? Quais dificuldades sonho que ele não tenha? E de onde essas minhas dificuldades surgiram?" Não demorei muito a concluir que o adulto que sou é fruto da criança que aprendi a ser. Se hoje tenho extrema dificuldade pra controlar a raiva, é porque não fui ajudada a lidar com minhas explosões infantis. Sei que a única vez que "esperneei" no mercado, apanhei e não repeti o comportamento. Se acho que ameaçar normal,é porque fui muito ameaçada pelas pessoas que mais me amavam no mundo. Se seguro o choro e nego meus sentimentos mais íntimos, é porque fui treinada a fazê-lo desde muito nova. Não, eu não quero que meu filho seja igual a mim. Não quero que tenha as mesmas dificuldades de relacionamento. Não quero que tenha a minha incapacidade de reconhecer o motivo de minhas angustias. Não quero que não saiba expressar o que sente, como sente. Não quero que viva a ponto de explodir. Não quero ver nele uma continuação de todas as minhas inseguranças emocionais.
Existe garantia de que vou conseguir? Infelizmente não. Mas já dizia Einstein, não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes. Logo, se quero um adulto diferente, preciso fazer da sua infância diferente. Olhe ao redor. Observe o mundo. Algo está errado. Não há revolução que mude o cenário que vemos diariamente. Porque o problema está nos seres que fomos condicionados a ser. Não é óbvio que não podemos seguir os mesmos caminhos de nossos pais? Não seria insano fazer tudo igual e esperar que nossos filhos sejam pessoas melhores que nós? Quando reconheceremos que somos emocionalmente inacabados? Que temos corações em frangalhos como crianças abandonadas nos berços, chorando até adormecer? 
Não sonho com a profissão que meu filho seguirá. Não me importo se será bem sucedido financeiramente. Minhas preocupações vão muito além do que a forma que a sociedade irá enxergá-lo. Me preocupa o que ele verá ao olhar no espelho. Que homem ele enxergará. Me preocupa se será emocionalmente seguro. Se saberá reconhecer suas tristezas e alegrias. Se lidará com as dores e frustrações de uma maneira sábia. Se chorará suas angústias se gozará com plenitude suas vitórias. Se terá empatia com o outro. Se será um ser humano melhor que eu. Estou no caminho certo? Talvez. Mas sei onde dá o outro caminho, e não é lá que quero chegar.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Mais uma epifania...

A maternidade é uma experiência transformadora. Ou reveladora, já não sei mais. Volta e meia me pergunto se esse ser que hoje sou é um Eu transformado ou um Eu revelado pela maternidade. Explico. A bem pouco tempo minha vida, minhas prioridades, meu sonhos e até meus pesadelos eram outros. Nunca, em hipótese alguma, sonhei que pariria em casa. Tão pouco que amamentaria um "rapazinho" - ouvi isso da dentista recentemente, que estou amamentando um rapazinho, enorme - de um ano. Muito menos que usaria fraldas de pano, dividiria a cama com o bebê e abandonaria a carreira. Imaginaria menos ainda que gostaria verdadeiramente destas tão intensas mudanças. Por isso me pergunto, a maternidade transformou ou revelou?
Começo a acreditar que não fui transformada. Passo a acreditar que me encontrei. A despeito do que muitos dizem, que viver em casa com o filho é improdutivo e frustrante, tenho me sentido altamente produtiva e feliz. Óbvio, existem os dias nebulosos. Mas estes sempre existirão, independente de nossas escolhas. A frequência que eles aparecem é que pode ser preocupante. Mas sim, voltando a mais esta epifania. A maternidade me desnudou. Depois de mergulhar tão profundamente em meus instintos, de viver com entrega a fase de fêmea parida, concluo que as roupas que tirei, lá no começo deste caminho, não me cabem mais. Não eram exatamente minhas. Não foram escolhidas pela minha alma, pelo meu desejo. Foram impostas, ditadas. Sufocavam, apertavam, incomodavam, marcavam. A tranquilidade e conforto que hoje sinto com minhas escolhas refletem que hoje sim visto as roupas feitas para mim. Escolhidas a dedo, confortavelmente ajustadas. 
A gente ouve tanta coisa desde que nasce que se distancia demais do que realmente somos. Permitimos que o mundo nos diga o que precisamos falar, comer, vestir, comprar, ouvir, gostar. Até a nossa rebeldia foi previamente planejada e imposta. Passamos anos desejando desejos que não são nossos.
Definitivamente não foram meus discursos que mudaram. Os discursos que sempre arrotei como verdades não eram meus. Mas a maternidade me deu de presente a tal pílula vermelha. E ai a gente começa a enxergar que necessitamos de menos do mundo e muito mais de nós. Por tanto, aos amigos que falam quase que com pena que parei a carreira ou que eu era muito boa no que fazia, apenas digo que, se é que importa,  estou feliz. E que esta é uma escolha genuinamente minha.
Não, não é felicidade modelo novela das oito. É felicidade de gente de verdade. É felicidade de ter a consciência tranquila. É felicidade de aproveitar o que realmente importa. É a felicidade de cozinhar um belo prato e saborear sem pressa. De acordar recebendo beijo babado de bebê. De poder parar no meio do dia, do nervosismo e da correria e brincar na sala. Felicidade de ter brinquedo espalhado pelo chão. De ler livro fazendo voz de macaco, de elefante e da mamãe urso.De tomar banho junto. De se espremer pra cabermos os três -papai, mamãe e bebê - na foto. Felicidade de ver os primeiros passinhos. De ouvir as primeiras palavras incertas. De admirar o sorriso durante o sono. De dividir a fruta, o prato, e o gosto. Não é essa felicidade que achei que teria um dia. Por anos a fio acreditei que a felicidade morava em produtos em prateleiras de lojas. E que precisava do trabalho corrido, do dia apertado e da rotina estressante para comprá-la. Engraçado que um serzinho que está no mundo a pouco mais de 1 ano que me ensinou o que realmente importa. Eles nascem sábios.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Partos no Parto

O parto me trouxe muitas mudanças. Não a chegada do meu filho, mas o parto em si. Pari dores, medos, frustrações, inseguranças, frescuras, preconceitos. Meu filho eu agarrei nos braços, o resto ficou ali, no misto de água e sangue na piscina. Pode soar estranho a quem nunca teve um parto respeitoso. Falo parto respeitoso porque parir normal da forma que acontece em grande parte dos hospitais Brasil a dentro não permite esta epifania. Pois bem, saí do parto transformada. 
Por muito tempo fui a mulher moderna, como manda o figurino. Afogada em cobranças de beleza, trabalho, tempo. Reproduzia discursos que me foram impostos de maneira tão natural, desde criança, que acreditava veementemente que eram discursos meus. Interiorizava muitas das incapacidades impostas por uma sociedade machista e puritana. Sem perceber me espelhava no padrão da mulher de plástico. Quem quiser um bom texto a respeito, dá uma lida nesta publicação da TPM, incrivelmente excelente.
Mesmo passando por transformações imensas durante a gestação, muito ainda precisava ser transformado. E eis que veio o parto. Na hora que eu não esperava, do jeito que eu jamais imaginei que seria. Em meus sonhos meu filho seria aparado por mim, em um parto tisunâmico, quase indolor. Mas eu não estava preparada pra isso. Eu tinha muitas coisas para parir no meu parto, não dava pra sair tudo assim, escorregando feito quiabo. E nas horas que caminhei pela casa, tudo mudava em mim. Mesmo totalmente irracional - e pra parir precisamos mandar a racionalidade pra longe - tudo se transformou. 
Depois de horas de dor, de bolsa rota, de mecônio, eu finalmente consegui por pra fora a fêmea feroz que sempre viveu reprimida em mim. A fêmea que enjaulei quando acreditei nesta sociedade asséptica, limpa, estéril. A fêmea que deixei de alimentar quando acreditei que a feminilidade cabia em saltos altos, pernas depiladas e "roupas sensuais". Mas o parto abriu a jaula. E ela saiu louca. E fizemos as pazes. E senti o cheiro de amor, de ocitocina e de sangue que estava no ar. Cheiro de mim. Descobri a doçura do cheiro de sangue. O sangue que por diversas vezes achei nojento, o líquido que acreditei ser um castigo mensal em minha vida. Não, o parto me mostrou que o sangue é meu e é bom. Aquele instante me faz agradecer diariamente a dádiva de ser mulher.
Parir doeu. Doeu muito. Mas toda a força avassaladora que estava em mim não sairia de maneira delicada. Precisava desta dor. E com a força que fiz, pus pra fora toda desconfiança que eu tinha que meu corpo não conseguiria. Deixei naquela água os medos que me impuseram durante toda a minha vida. Deixei de ser coitada. Saí do raso e fui fundo em mim. Vi muito além do que dizem ser uma mulher. Nesse olho no olho com a fêmea que sou, percebi que o corpo perfeito não cabe em números. Que perfumes não gostosos, mas que meus cheiros também são. Fiz as pazes com minha intuição, com meu poder e com meu sangue.
Inquestionavelmente saí do parto me sentindo poderosa, mais segura. Hoje pouco importa se meu cabelo cacheado não é considerado elegante, se minhas unhas não estão sempre feitas ou se meus sapatos de salto estão guardados em caixas no topo do roupeiro. Não caibo em padrões. Assim que pari olhei para aquele guri gordo e graúdo, respirei fundo e conclui que sou foda - não encontro palavra que consiga descrever melhor a sensação - e essa sensação ninguém consegue me tirar. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Para a patrulha anti-peito

Pra quem não sabe, hoje é o dia mundial da amamentação. Um dia de conscientização, de informação e de luta. Esta semana muitas manifestações serão realizadas pelo País, com o intuito de lembrar às mães e à sociedade o quanto amamentar é importante. Nas bandas de cá, em 6 dias completaremos 12 meses de amamentação. 12 meses de troca, de vínculo fortalecido, de olhares trocados, de amor líquido. Não posso negar, me orgulho demais de estarmos atingindo esta marca. Porque? Porque amamentar no Brasil é pra quem tem raça! Não, não é pra quem tem leite. Sinto informar, mas leite todo mundo tem. O que faltou à mãe que queria amamentar e não conseguiu foi informação e apoio. Pra amamentar não basta querer. 
Se você tem dificuldades com a amamentação, esqueça o chá que sua mãe mandou fazer, a mandinga que a sogra ensinou e, principalmente, o conselho do seu pediatra e/ou ginecologista fofo. Busque a ajuda certa, vá a um banco de leite, procure uma especialista em amamentação, alguém que realmente entenda do assunto. Todo o resto serve apenas para confundir e desencorajar. Mas meu post hoje não é pra explicar sobre a amamentação ou ajudar quem tá começando. Hoje me dirijo a você, que vira o rosto quando vê alguém amamentando em público, que acha um absurdo tirar o peitão na rua. Você que acha imoral amamentar um bebê de dois anos mas não perde uma cena da novela das oito! Você que carinhosamente chamo de patrulha anti-peito! É a você que dedico estas mal traçadas linhas!
Pra começo de conversa, vamos deixar clara a utilidade dos seios femininos. Eu sei que a mídia e a sociedade machista te ensinaram que os seios servem para seduzir e erotizar, mas essa não é exatamente a função principal dos peitões. Sinto muitíssimo te desapontar, mas a não ser que você seja um bebê, os seios não foram feitos para te satisfazer. Como em todos os mamíferos - sim, eu sei que você aprendeu isso na aula de ciências, somos mamíferos - as tetas servem para alimentar a cria. E se é pra isso que eles servem, nada mais justo que os utilizemos para seu devido fim. Então, saco as peitolas em qualquer lugar, a qualquer hora, para alimentar a minha cria. E não vejo motivo para me envergonhar. Se você, de alguma maneira, acredita que uma mulher que amamenta em público está querendo chamar atenção e/ou seduzir quem quer que seja, lembre desta lição. Tetas são para os filhotes. E por mais que você tenha uma mente de filhote, sua fase já passou.
Ah, jamais, nunca, em hipótese alguma, ofereça um paninho para uma mulher cobrir os seios. Você come de cara coberta, cara pálida? Porque acha que o pobre do meu filho vai se sentir mais confortável se alimentando com um pano na cabeça? Você come no banheiro? Então siga a mesma lógica, não espere que uma mulher se sente em um banheiro para alimentar uma criança! Tá vendo como a regrinha de ouro é simples e vale muito? Se coloca no lugar do outro que tudo fica mais fácil. O bebê está se alimentando, recebendo carinho e atenção da mãe. Engraçado que dar uma mamadeira não escandaliza ninguém. Tem algo errado, né não?
Ultimamente começo a sofrer uma pressão que não esperava que acontecesse tão cedo: O desmame. Alguém pode me explicar porque cargas d'agua as pessoas se incomodam tanto com um bebê mamando? Ah, seu pediatra disse que depois de um ano o leite materno não serve para mais nada????? Pois bem, façamos o seguinte, peça que ele estude bastante, faça uma pesquisa séria, publique em uma revista científica bem reconhecida e transforme a asneira que fala em argumento. E chega de mimimi. Ah, tem uma hora que a gente perde a paciência. Depois de quase um ano explicando, conversando e fazendo cara de alface, decidi partir para a grosseria. A teta é minha e o filho é meu. Se tá bom pra gente, ninguém tem nada com isso. Um dia ele para de mamar, na hora dele, no nosso tempo. Não se preocupe, nunca vi menino de 15 anos pendurado no peito da mãe. 
Agora vamos com a tia Elisama fazer um resumo das lições de hoje, repete comigo: " O peito serve para alimentar um filhote, vou deixar de ser machista e burro e respeitar o momento da amamentação. Nunca mais vou dar opiniões enfraquecedoras e desencorajadoras, nem falar do que não entendo. Também não vou oferecer paninhos, torcer a cara ou perguntar quando o bebê vai parar de mamar. O leite materno é saudável, forte e adequado."  Agora vá pro cantinho do pensamento e só saia de lá quando entender que a amamentação alheia não lhe diz respeito. Se não conseguir entender isso, corra para terapia. Só Freud explica.

P.S. O "cantinho do pensamento" é uma forma de educação inapropriada para crianças, utilizei no texto por ser dirigido a adultos. Não apoio nenhum tipo de castigo, nem físico, nem moral.